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Mostrando postagens de maio, 2026

tio Tó - 2016 1ª revisao

 Oh Tio Tó e Tia Teresa, fiquem descansados: eu e os restantes contribuintes portugueses autorizamos, com enorme generosidade cristã e republicana, que escolham o colégio privado dos meninos. À vontade. Se têm dinheiro para isso, força. Cada um educa os filhos onde entende e onde a carteira permite. Agora, se um dia a conta apertar — porque a vida às vezes tem esse mau gosto democrático — não se preocupem: os nossos filhos recebem os vossos de braços abertos na escola pública. Sem dramas. Há sempre lugar para mais uma carteira e uma sandes embrulhada em papel de alumínio. “Ah, mas a qualidade da escola pública não é a mesma”, dizem os tios, escandalizados, como quem descobriu humidade numa casa de férias. Pois claro que não é perfeita. Mas tenham calma. Talvez daqui a dois ou três anos melhore um bocadinho, precisamente com o dinheiro que o Estado deixar de despejar em colégios privados que cobram mensalidades capazes de financiar uma pequena república independente. Portanto, se...

festival capote - 2022 2º revisao

 Este ano não fui ao Festival Capote. Que me perdoem os amigos que subiram ao palco e os companheiros das associações que lhe deram vida. Mas não fui. Não consegui. A verdade é simples: sem o Alberto, faltava-me o caminho. Era ele quem abria as portas da música antes de nós. Chegava com o programa dobrado no bolso e aquele entusiasmo quase infantil de quem tinha descoberto um segredo. Dizia-nos: “Este não podem perder.” “Escutem este miúdo.” “Esta banda ainda é verde, mas vai crescer.” E nós íamos atrás dele, como quem segue alguém que sabe reconhecer beleza antes dos outros. Era o Alberto quem comprava os bilhetes, quem chegava primeiro, quem nos esperava junto às grades, impaciente e feliz. E era também ele quem se zangava quando falávamos demais entre músicas ou quando não tínhamos escutado um concerto até ao fim, como se cada canção merecesse respeito absoluto. O Alberto não gostava apenas de música. O Alberto vivia-a. E o Capote era uma espécie de casa sagrada onde e...

festival capote - 2022 1º revisao

 Este ano não fui ao Festival Capote. Que me perdoem os amigos que lá atuaram e os colegas das associações envolvidas. Mas não consegui. Sem o Alberto, não dava. Era ele quem nos entusiasmava com as novas propostas musicais. O Alberto via o programa inteiro e dizia-nos quais eram os concertos imperdíveis, aqueles músicos ainda “verdes”, mas já cheios de qualquer coisa rara, quase secreta. Era ele quem comprava os bilhetes, o primeiro a chegar ao recinto e o último a aceitar que a noite tinha acabado. E ainda ralhava connosco quando não tínhamos ouvido todos os temas com a atenção devida. O meu amigo Alberto era um apaixonado pela música, mas pelo Capote tinha uma devoção especial. E, como acontece com as paixões verdadeiras, contaminava toda a gente à volta. Depois do festival vinham as conversas intermináveis: discutir aquele músico, aquela nota ao lado, o som, as luzes, os arranjos, os excessos e os milagres. O Capote não acabava quando se apagavam os palcos. Durava dias dent...

fina flor do entulho - 2026 3ª revisao

 O meu pai era homem de gostar do mundo. Gostava das pessoas com a indulgência com que os sobreiros aguentam o vento: sem pressa de condenar, sem necessidade de compreender tudo. Via a miséria, a vaidade, as pequenas crueldades humanas, e ainda assim encontrava sempre uma desculpa terna para os pecados dos outros. Dizia que ninguém nasce mau — às vezes nasce apenas perdido, torto da vida, cansado por dentro. Sempre lhe chamei, entre gargalhadas, “o último dos moicanos”. E havia verdade nisso. Tinha qualquer coisa de espécie em vias de extinção: uma humanidade antiga, desajeitada e funda, feita de ironia, silêncio e compaixão. Mas existia uma fauna muito particular que lhe eriçava o espírito. Chamava-lhes, com aquele talento alentejano para transformar insultos em poesia: — “A fina flor do entulho.” E nunca expressão serviu tão bem a tanta gente. Eram os aristocratas da ruína, os condes da aparência, os marqueses do vazio. Gente sem reino nem cadeira onde cair morta, mas sempr...

a fina flor do entulho - 2026 2ª revisao

 O meu pai era um homem feito de uma matéria antiga, dessas que já quase não se fabricam. Gostava das pessoas como se olha a terra depois da chuva: sem perguntar de onde vêm as pedras ou para onde correm as águas. Para ele, pobres e ricos sentavam-se todos à mesma mesa invisível da condição humana. Aos erros alheios dava sempre desconto, como quem conhece demasiado bem as fraquezas do mundo para se armar em juiz. Chamava-se, a rir, “o último dos moicanos”. E talvez fosse. Havia nele qualquer coisa de resistente e solitária, como uma azinheira velha no meio do campo. Mas existia uma tribo que lhe provocava um cansaço particular na alma. Gente a quem chamava, com aquele génio cruel e luminoso do humor alentejano, “a fina flor do entulho”. Ah… a fina flor do entulho. Criaturas sem casa no próprio destino, mas sempre de peito enfunado como velhos fidalgos arruinados. Gente que vivia de reflexo, como lua pobre dependente da luz dos outros. Andavam colados aos importantes para ver se...

a fina flor do entulho - 2026 1º revisao

 O meu pai era um homem raro. Gostava de quase toda a gente — e digo “quase” porque santo também não era, nem queria ser. Para ele não havia pobres nem ricos, doutores nem analfabetos, gente da cidade ou do monte. Havia apenas pessoas. E mesmo quando alguma fazia porcaria da grossa, ele arranjava sempre uma desculpa, um remendo moral, uma espécie de perdão alentejano servido em tom de resmungo e copo de vinho. Chamava-se a si próprio “o último dos moicanos”, talvez porque sabia que aquele jeito de olhar os outros com humanidade estava em vias de extinção. Mas havia uma espécie humana que lhe fazia comichão na alma: aquilo a que ele baptizou, com a precisão cruel do humor alentejano, “a fina flor do entulho”. E quem eram estes espécimes? Regra geral, gente que já não tinha onde cair morta, mas continuava a desfilar medalhas imaginárias ao peito. Criaturas especialistas em viver por procuração da importância alheia. Encostavam-se aos ricos como lapas sociais, frequentavam eventos...

a fina flor do entulho - 2026

  O meu pai era um homem que gostava praticamente de toda a gente. Nao fazia distinção, pobres, ricos, letrados, analfabetes, do campo da cidade, nao havia gente má, arranjava sempre uma desculpa para actitudes menos boas que as pessoas cometiam. Chamava-lhe mesmo " o ultimo dos moicanos". Havia no entanto um tipo de pessoa que ele não achava muita graça, chamava-lhes "a fina flor do entulho". e quem era esta gente? A maioria era gente que já não tinha onde cair morto, mas que continuava a puxar pelos galões ou gente que andava atras dos ricos para parecer que tinha onde cair. Gente que aparecia em tudo o que fosse "importante" muitas vezes sem convite, que se colava a gente convidada para frenquentar locais "finos" e gente que gostava de aparecer nas fotografias para fazer de conta que eram gente. como tinha um humor particular, um humor à alentejana, muitas vezes fazia algumas considerações a esse tipo de pessoas, que regra geral não percebiam,...

Ora a coisa vai começar a mudar!!!!-2014 2ª revisao

 Ora, parece que a coisa começa finalmente a mudar. Durante anos disseram-nos que a austeridade era inevitável. Que não havia outro caminho. Como antigos padres de uma religião económica sem misericórdia, repetiam-nos que os povos do sul da Europa tinham vivido acima das suas possibilidades e que agora deviam pagar pelos seus pecados através da pobreza, do desemprego e da humilhação coletiva. E nós pagámos. Pagaram os portugueses, os gregos, os irlandeses. Pagaram famílias inteiras, trabalhadores, reformados, jovens obrigados a emigrar com diplomas na mala e medo no peito. Países inteiros transformados em laboratórios de sofrimento social pelas mãos da chamada troika: European Commission , European Central Bank e International Monetary Fund . E a austeridade tinha rostos. O rosto frio de Angela Merkel . O sorriso obediente de José Manuel Durão Barroso . A linguagem técnica e sem sangue de Vítor Gaspar . Durante demasiado tempo venderam-nos o sofrimento como virtude moral. ...

Portugal agoniza - 2014 revisto

 O Portugal nascido de Abril parece hoje caminhar devagar para a exaustão. Não morre de um golpe só — agoniza lentamente, como agonizam as coisas que um dia foram sonhadas com demasiada esperança. Nunca como agora se viu tanta gente sem trabalho, sem horizonte, sem futuro. Há uma tristeza funda a instalar-se nas casas, uma espécie de cansaço coletivo que vai apagando os sonhos antes mesmo de nascerem. Os números da emigração voltam a crescer como nos anos sessenta, talvez ainda mais. E é doloroso perceber que, meio século depois de uma revolução feita em nome da dignidade, os filhos de Portugal continuam a partir. Mudam os aviões, mudam os destinos, mas permanece a mesma mala cheia de ausência. As famílias voltam a apertar-se dentro das casas. Casas que já foram símbolo de ascensão e estabilidade regressam agora à condição antiga dos cortiços: avós, filhos, netos, genros, cunhados, todos empilhados na sobrevivência, dividindo quartos, contas e silêncios. Vive-se ao molho e co...

Ora a coisa vai começar a mudar!!!!-2014 1ª revisao

 Ora, parece que a coisa começa finalmente a mudar. Durante anos disseram-nos que a austeridade era inevitável. Que não havia alternativa. Que os povos do sul da Europa tinham vivido acima das possibilidades e agora tinham de expiar os seus pecados económicos através da pobreza, do desemprego e da humilhação coletiva. Portugal, Grécia, Irlanda — países inteiros transformados em laboratórios de sofrimento social pelas mãos da chamada “troika”: European Commission , European Central Bank e International Monetary Fund . E no rosto dessa austeridade havia nomes que o tempo dificilmente apagará: Angela Merkel , José Manuel Durão Barroso , Vítor Gaspar . Durante demasiado tempo venderam a austeridade como virtude moral. Sofrer passou a ser apresentado quase como um dever cívico. Cortaram-se salários, pensões, sonhos. Fecharam-se empresas. Destruíram-se vidas inteiras em nome de uma disciplina orçamental que parecia escrita não por economistas, mas por contabilistas sem memória human...

Portugal a agonizar - 2014 2º revisao

 O Portugal democrático nascido do Carnation Revolution parece hoje um homem velho sentado à beira do caminho, cansado demais para continuar a contar a própria história. Há nele qualquer coisa de moribundo. Não morreu ainda. Mas respira devagar. As ruas encheram-se de gente sem rumo, sem trabalho, sem sonhos suficientemente fortes para atravessar o mês. Há uma tristeza nova a morar nas cidades, uma tristeza silenciosa que não faz manifestações nem rebenta vidros — limita-se a instalar-se lentamente dentro das casas, como humidade antiga. Os filhos voltam a partir. Os números da emigração já lembram os da década de 60, talvez até os tenham ultrapassado. Aviões cheios de juventude levantam voo enquanto as aldeias envelhecem à janela e as mães fingem coragem nos aeroportos. Portugal volta a exportar gente. E os que ficam sobrevivem como podem. As casas da antiga classe média transformam-se novamente em cortiços modernos. Debaixo do mesmo teto apertam-se avós, filhos, netos, g...

portugal a agonizar -. 2014 1º revisao

 O Portugal democrático nascido da revooluçao  parece cansado. Não morreu. Mas há dias em que respira devagar, como um velho combatente que já não reconhece o país que ajudou a construir. Nunca como agora se falou de tanta gente sem trabalho, sem horizonte, sem sonhos que resistam ao fim do mês. Há uma geração inteira a viver em suspenso, empurrando dias vazios como quem empurra móveis numa casa demasiado pequena para tanta desilusão. Os números da imigração voltam a lembrar os da década de 60. Filhos partem outra vez. Netos crescem longe. O país exporta juventude como antigamente exportava cortiça e vinho: em silêncio resignado. E os que ficam apertam-se dentro das casas. Casas que já foram símbolo de uma classe média orgulhosa e que agora voltam lentamente à lógica dos antigos cortiços. Debaixo do mesmo teto amontoam-se avós, filhos, netos, genros, cunhados, vidas inteiras empilhadas pela necessidade. Divide-se o pão, divide-se a conta da luz, divide-se até o deses...

gala de Ouro da Sic - 2017 1º revisao

 abertura da Gala dos Globos de Ouro fez-me recuar muitos anos e lembrar a velha Rádio Clube de Redondo. Naquele tempo, os rapazes da rádio queriam fazer anúncios modernos, criativos, “fora da caixa”, como agora se costuma dizer. O problema é que, quase sempre, aquilo saía com um encanto involuntário entre o genial e o profundamente piroso. Eram coisas do género: — “Moço… não te drogues, anda de mota!” Seguido, claro, do nome da empresa patrocinadora, dito com solenidade publicitária e sotaque carregado do Alentejo. Ou então aquela maravilhosa pérola: — “Aníbal… tanta coisa, tanta coisa!” E lá vinha depois a descrição do que o pobre do Aníbal vendia. Mas atenção: isto só tem graça verdadeira se imaginarem tudo dito em sotaque de Redondo, arrastado, musical, com aquele dramatismo natural de quem transforma qualquer frase banal num acontecimento radiofónico. Ora foi exatamente essa memória que me veio à cabeça ao ver a abertura da Gala. Notava-se o esforço. Queriam ser mod...

Gala dos Globos de Ouro da SIC - 2017

  A abertura da Gala dos Globos de Ouro da SIC fez-me recordar a Radio Clube de Redondo há uns anos atrás...queriam os rapazes fazer uns anúncios diferentes e saiam-se com coisas deste género... " Moço não te drogues anda de mota!" e depois o nome da empresa ou então.. "Aníbal...tanta coisa tanta coisa!" e lá diziam o que vendia o Aníbal. ( tentem imaginar com sotaque de Redondo vai valer a pena) Foi assim a abertura da Gala, queriam ser engraçados e a coisa saiu pirosa e tão desenxabida que parecia uma piada de mau gosto!

o lixo não recolhido - 2017 2ª revisao

 E lá tenho eu mais uma história para contar. Às vezes penso que talvez tenha tantas histórias porque nunca aprendi a ficar quieta diante do caos. Ou talvez seja apenas a tal irrequietude de que a minha mãe fala desde sempre, como quem descreve um defeito que o tempo nunca conseguiu curar. Não sei. Só sei que a vida parece gostar de me testar precisamente nos dias em que o corpo já não consegue mais. Depois de uma semana inteira de trabalho e de dois espetáculos ao fim de semana, eu só queria descanso. Um sofá. Silêncio. A lentidão simples de quem sobreviveu aos dias. Mas o domingo tinha outros planos. A água começou a entrar devagar, quase em segredo, como fazem as tragédias pequenas que ninguém leva a sério no início. Primeiro uma poça tímida. Depois outra. Até que dei por mim de pés mergulhados num rio doméstico, água pelos tornozelos e a casa inteira a respirar humidade. Havia qualquer coisa de absurda naquela cena: eu, cansada até aos ossos, a olhar para o chão inundado...

o lixo nao recolhido - 2017 1ª revisao

 E lá tenho eu mais uma história para contar. Já o disse aqui outras vezes: talvez só tenha tantas histórias porque tenho esta mania teimosa de procurar soluções. Ou talvez seja apenas porque sou irrequieta, como a minha mãe tantas vezes diz. Não sei. Mas lá que as histórias me encontram, encontram. Depois de uma semana inteira de trabalho e de dois espetáculos ao fim de semana, quando o corpo já só pedia silêncio, cama e descanso, eis que o domingo decide oferecer-me uma inundação. Daquelas mesmo à portuguesa: inesperadas, absurdas e sem manual de instruções. Por causa da pressão excessiva na água da rede, a casa começou a encher-se. Primeiro devagar, quase tímida. Depois sem cerimónia. Quando dei por ela, tinha água pelos tornozelos e a sensação estranha de que o chão se transformara num rio doméstico. Liga-se para os bombeiros. Não podem fazer nada. As bombas deles só funcionam quando a inundação chega, pelo menos, ao meio das pernas. Pelos tornozelos ainda não é tragédia ...

o lixo não recolhido - 2017

  E lá tenho mais uma historia para contar... Já aqui o disse, talvez só as tenha porque tenho esta mania de lutar por soluções, mas também pode ser só por ser irrequieta como tantas vezes diz a minha mãe, não sei...mas lá que tenho tenho! Depois de uma semana de trabalho, dois espectáculos no fim-de-semana e quando o corpo pedia descanso eis que devido à pressão excessiva na agua me sai no domingo uma inundação que me dá pelos tornozelos! Liga-se para os bombeiros...não podem fazer nada as bombas deles precisam que a inundação seja maior, ai pelo meio das pernas, não, é só pelos tornozelos! Liga-se para os serviços municipalizados, estão fechados é domingo, é justo! Liga-se para a protecção Civil e não podem dar resposta! Encontramos a resposta...pegamos em baldes, vassouras, esfregonas e com a ajuda de 6 amigos lá damos conta da agua, 6 horas depois. Isto porque ainda estamos em idade activa e os nossos amigos também. Se fosse uma velhinha de 70 anos queria ver como se resolvia? ...

o claud - 2019 2ª revista

 Já que gostaram da história de ontem, deixem-me contar-vos outra. Esta, porém, mora em mim como moram certas canções antigas: um pouco gastas pelo tempo, mas impossíveis de esquecer. Era o início dos anos 90 e eu vivia numa quinta para os lados do Louredo. Uma casa grande, dessas construções rurais feitas aos remendos da vida, com quartos dispersos, entradas independentes e paredes que pareciam ter sido erguidas mais pela necessidade do que pela arquitetura. Eu morava lá com a minha filha pequena. E, sem dar por isso, a casa começou a encher-se de gente perdida. Amigos de amigos. Rapazes fugidos de separações recentes. Filhos zangados com os pais. Almas desalojadas pela vida. Pessoas que, de um dia para o outro, deixavam de ter casa, rumo ou colo onde cair. E acabavam ali. Nos quartos vazios da quinta. Sem renda. Sem contratos. Sem perguntas. Naquele tempo ainda éramos suficientemente ingénuos para acreditar que uma porta aberta podia salvar alguém. Os meus pais tinham u...

o claud - 2019 1º revista

 Já que gostaram da história de ontem, hoje conto-vos outra. Mas esta é minha. No início dos anos 90, vivia numa quinta para os lados do Louredo. A casa onde morava com a minha filha fazia parte de um daqueles conjuntos rurais antigos, cheios de anexos e divisões com entradas independentes, construídos ao sabor das necessidades e não dos arquitetos. Nessa altura, havia sempre alguém sem rumo. Amigos de amigos que se separavam, que se zangavam com os pais, que perdiam o emprego ou simplesmente perdiam o chão. E, sem grande cerimónia, acabavam instalados naqueles quartos vazios — de borla, claro, porque nessa idade ainda acreditávamos que o mundo se resolvia com portas abertas e panelas cheias. Como os meus pais tinham um restaurante, eu aparecia em casa carregada de comida. E como sempre comi pouco, aquilo transformava-se num jantar coletivo quase todas as noites. Sentávamo-nos à mesa como uma pequena tribo improvisada, gente meio perdida que a vida tinha juntado ali por acaso. ...

o Claud - 2019

  á que gostaram da historia de ontem, vou contar-vos outra, mas esta é minha.No inicio da década de 90, vivia numa quinta ali para os lados do Louredo. Tinha a casa onde vivia com a minha filha e varias outras divisões com entrada individual, coisa de construções no campo. Nessa altura vários amigos de amigos, estavam sem casa, ou porque se separavam ou porque brigavam com os pais, enfim ficavam sem ter onde viver e acabaram naqueles quartos ( de borla). Como os meus pais tinham um restaurante eu levava muita comida para casa e como como muito pouco, eles iam todos jantar comigo, aquilo era uma espécie de comunidade, só que sem o líder espiritual (ih,ih,ih). Numa altura apareceu na cidade um americano que andava a deambular pelo mundo, não tinha dinheiro, nem onde dormir e acabou, nem sei como num desses quartos. O Claud viveu lá 6 meses, era um marceneiro fantástico, arranjou quase todos os moveis lá de casa para se entreter. Ao fim de 6 messes, fez as malas e seguiu o seu r...

o medo é irracional - 2025 2º revista

 Vocês não sei, mas eu lembro-me. Lembro-me de um país cinzento, fechado sobre si mesmo como uma casa onde as janelas passaram décadas sem se abrir. Um país onde a tristeza era confundida com respeito, o silêncio com virtude e a obediência com carácter. Um país educado à sombra longa de Salazar e ao moralismo severo do cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira , onde até a felicidade parecia ter de pedir licença para existir. E depois chegaram eles. Vieram do outro lado do mar, das ex-colónias, trazendo nos olhos o pó vermelho de Angola, o calor húmido de Moçambique, os cheiros da Guiné, os ritmos de Cabo Verde. Chegaram cansados, despojados, feridos da alma. Muitos tinham perdido tudo, menos a memória e o sotaque da infância. Mas Portugal não viu a dor deles. Viu apenas a diferença. As mulheres usavam vestidos coloridos demais para este país habituado ao escuro. Os homens falavam alto demais para esta terra treinada no sussurro. Havia crianças mulatas a correr pelas ruas, casais mi...

o medo é irracional - 2025 1º revista

 Vocês não sei, mas eu lembro-me. Lembro-me de quando chegaram a Portugal continental os portugueses vindos das ex-colónias, trazendo nos navios e nos aviões não apenas malas apressadas e vidas desfeitas, mas mundos inteiros dentro deles. E lembro-me do medo. Portugal ficou ao rubro. As pessoas assustaram-se com aquela gente diferente — embora fossem portugueses também. Vinham de Angola, de Moçambique, da Guiné, de Cabo Verde, de São Tomé. Gente branca, negra, mulata. Famílias misturadas pela vida e pelo amor, coisa rara num país que crescera fechado entre a missa de domingo, a moral de Manuel Gonçalves Cerejeira e o cinzento disciplinado da ditadura. Assustavam aquelas mulheres de vestidos leves e cores vivas. Assustavam os homens que falavam alto, riam sem pedir licença e dançavam como se o corpo não fosse pecado. Assustavam os cheiros das especiarias, os temperos desconhecidos, a música que saía das janelas dos bairros improvisados nos arredores das cidades. Os bairros de ...

o medo é irracional - 2025

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  Vocês não sei, mas eu lembro-me que quando vieram para Portugal continental, os portugueses das ex colônias, Portugal ficou ao rubro. As populações ficaram com medo daquela gente que vinha com hábitos diferentes, gente branca que vestia e se comportava de forma diferente, bem mais desinibida que a população que aqui vivera sob as ordens do moralismo de Cerejeira. Assustaram-se com aquelas famílias mistas onde pais ou mães brancas traziam companheiros negros e filhos mulatos, coisa nunca vista por terras lusas. entraram em pânico quando centenas de famílias negras de angola, Moçambique ou da guiné criaram bairros de lata ao redor das cidades, por nao terem onde morar, gente que trazia novas cores nas vestes, ofendendo o cinzento deste pais, ou novos cheiros de especiarias desconhecidas aos nossos sentidos. Gente que ouvia musica alto e dançava mostrando uma felicidade, que por cá havia sido reprimida durante anos. Vocês não sei, mas eu lembro-me que toda esta gente assustou os por...

Ai, Carlos - 2025 2º revista

 Hoje, no café, o país inteiro cabia em duas mesas de fórmica, três bicas curtas e uma discussão sem futuro. De um lado, um homem da minha idade, rosto gasto pelo tempo e pelas conversas repetidas, jurava ter votado no Chega porque os imigrantes vieram roubar o pão aos portugueses. Dizia aquilo com a solenidade dos homens que nunca carregaram verdadeiramente o peso do mundo às costas. Do outro lado, um quarentão eterno aprendiz da vida defendia a CDU com indignação revolucionária. A culpa, dizia ele, era dos patrões que pagam mal. Que se em Portugal se ganhasse como em França, três ou quatro mil euros, até ele ia cavar terra de sol a sol. E eu escutava-os em silêncio, escondendo o riso dentro da chávena. Porque conheço os dois. O primeiro reformou-se ainda novo, depois de uma queda de andaime e de uma perna partida que lhe abriu as portas da invalidez. Invalidez curiosa, essa, que lhe permite correr pelas manhãs, frequentar ginásios, passear sem pressa e viver dias inteiros ...