fina flor do entulho - 2026 3ª revisao

 O meu pai era homem de gostar do mundo. Gostava das pessoas com a indulgência com que os sobreiros aguentam o vento: sem pressa de condenar, sem necessidade de compreender tudo. Via a miséria, a vaidade, as pequenas crueldades humanas, e ainda assim encontrava sempre uma desculpa terna para os pecados dos outros. Dizia que ninguém nasce mau — às vezes nasce apenas perdido, torto da vida, cansado por dentro.

Sempre lhe chamei, entre gargalhadas, “o último dos moicanos”. E havia verdade nisso. Tinha qualquer coisa de espécie em vias de extinção: uma humanidade antiga, desajeitada e funda, feita de ironia, silêncio e compaixão.

Mas existia uma fauna muito particular que lhe eriçava o espírito.

Chamava-lhes, com aquele talento alentejano para transformar insultos em poesia:
— “A fina flor do entulho.”

E nunca expressão serviu tão bem a tanta gente.

Eram os aristocratas da ruína, os condes da aparência, os marqueses do vazio. Gente sem reino nem cadeira onde cair morta, mas sempre de nariz levantado, como se o sangue lhes corresse azul entre prestações vencidas e fatos alugados. Viviam encostados aos importantes como hera seca em muro alheio. Frequentavam inaugurações sem saber o que se inaugurava, exposições onde nunca olhavam um quadro, concertos onde apenas escutavam o ruído do próprio nome.

Tinham o dom extraordinário de aparecer.

Ah, aparecer.

Essa liturgia moderna.

Chegavam atrasados para serem vistos a entrar. Circulavam devagar para dar tempo aos fotógrafos. Riam alto para parecer íntimos da felicidade. E no exacto instante em que alguém levantava uma câmara, endireitavam a alma, sugavam a barriga e vestiam no rosto aquela expressão solene dos que confundem notoriedade com existência.

O meu pai via-os desfilar como pavões depenados num terreiro de vaidades e murmurava:
— “Olha-os… a fina flor do entulho.”

Depois ficava a olhar devagar, saboreando o ridículo humano como quem aprecia um vinho áspero, sempre com um sorriso trocista.

E quando algum desses figurantes lhe parecia particularmente obtuso, rematava:
— “Já não lhes basta serem a fina flor do entulho… ainda são burros que nem cornos.”

O mais sublime era isto: muitos sorriam, convencidos de que ele estava a dizer um elogio aristocrático. Porque a vaidade tem esta tragédia deliciosa: torna cegos os medíocres.

E agora olho à volta e vejo-os multiplicados como erva daninha depois da chuva. Andam de evento em evento, de copo em copo, de selfie em selfie, peregrinos da importância instantânea. Já não vivem momentos — coleccionam provas de presença. São devotos da fotografia, mendigos de atenção, santos canonizados pelo flash.

Há neles qualquer coisa profundamente cómica e infinitamente triste.

Parecem almas despejadas de conteúdo, mas muito bem iluminadas.

Sorriem para telemóveis como antigamente se sorria para o futuro. Abraçam gente de quem não gostam. Chamam “querido” a quem desprezam. Flutuam pelas salas com aquela leveza espectral dos que vivem apenas na superfície das coisas.

E talvez o meu pai tivesse razão.

No fim, há pessoas que passam a vida inteira sem conseguir ser ninguém — e então dedicam-se desesperadamente a parecer alguém.

Mas a verdade, essa velha cruel sem filtro nem Photoshop, acaba sempre por chegar.

E quando o silêncio cai depois do flash, sobra apenas aquilo que sempre esteve lá:
o entulho.

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