Portugal agoniza - 2014 revisto

 O Portugal nascido de Abril parece hoje caminhar devagar para a exaustão.

Não morre de um golpe só — agoniza lentamente, como agonizam as coisas que um dia foram sonhadas com demasiada esperança.

Nunca como agora se viu tanta gente sem trabalho, sem horizonte, sem futuro.
Há uma tristeza funda a instalar-se nas casas, uma espécie de cansaço coletivo que vai apagando os sonhos antes mesmo de nascerem.

Os números da emigração voltam a crescer como nos anos sessenta, talvez ainda mais. E é doloroso perceber que, meio século depois de uma revolução feita em nome da dignidade, os filhos de Portugal continuam a partir. Mudam os aviões, mudam os destinos, mas permanece a mesma mala cheia de ausência.

As famílias voltam a apertar-se dentro das casas.
Casas que já foram símbolo de ascensão e estabilidade regressam agora à condição antiga dos cortiços: avós, filhos, netos, genros, cunhados, todos empilhados na sobrevivência, dividindo quartos, contas e silêncios. Vive-se ao molho e com fé — não já em Deus, mas apenas no amanhã.

Os desempregados aceitam biscates pagos a preço de miséria, trocando horas de vida por salários que mal chegam para impedir a fome discreta dos dias modernos. Porque hoje a pobreza não tem sempre o rosto esfarrapado de antigamente; muitas vezes veste-se de normalidade e esconde-se atrás de portas fechadas.

Nos supermercados, as compras voltaram a caber no regaço.
Contam-se moedas para o pão, para o leite, para os medicamentos. Há mãos que hesitam antes de pegar numa peça de fruta. Há pais que fingem não ter fome para que os filhos repitam o jantar.

E, enquanto o país se empobrece, o Estado engorda.
No IRS, no IUC — para quem ainda não vendeu o carro — e no IMI — para quem luta para não perder a casa — arrecadam-se milhões arrancados à exaustão de quem trabalha. O povo aperta o cinto até sufocar, enquanto os que governam parecem habitar um país paralelo, distante da aflição comum.

Portugal vai-se desfazendo aos poucos.
Perde o orgulho conquistado pela última grande revolução social da Europa. Entrega património, recursos, identidade, pedaços inteiros de soberania, como quem vende a mobília da casa para adiar a ruína mais uma semana.

Também a liberdade se tornou mais frágil do que sonhámos.
A liberdade de imprensa, conquistada com Abril, parece hoje sobreviver entre interesses económicos, dependências políticas e algoritmos. Muitos dos jornalistas que ainda resistem fazem-no quase clandestinamente, refugiados no mundo virtual — esse lugar onde ainda se pode falar, mas ao qual grande parte do povo já não chega, esmagado pelo cansaço de sobreviver.

Tentam nascer alternativas.
Tentam erguer-se vozes diferentes.
Mas as máquinas da propaganda são imensas e eficientes, transformando a repetição em verdade e o ruído em silêncio.

Portugal parece um corpo cansado, ligado a máquinas invisíveis que prolongam a sobrevivência sem devolver esperança.
E talvez o mais triste não seja apenas a pobreza material.
Talvez seja este lento desaparecimento da confiança coletiva, esta erosão da alma de um povo que já acreditou poder mudar o destino.

Portugal perde brilho.
Perde orgulho.
E os portugueses, cansados de resistir, começam perigosamente a perder a raça — essa antiga capacidade de enfrentar o mundo mesmo quando tudo parecia perdido

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