Ora a coisa vai começar a mudar!!!!-2014 1ª revisao

 Ora, parece que a coisa começa finalmente a mudar.

Durante anos disseram-nos que a austeridade era inevitável. Que não havia alternativa. Que os povos do sul da Europa tinham vivido acima das possibilidades e agora tinham de expiar os seus pecados económicos através da pobreza, do desemprego e da humilhação coletiva.

Portugal, Grécia, Irlanda — países inteiros transformados em laboratórios de sofrimento social pelas mãos da chamada “troika”: European Commission, European Central Bank e International Monetary Fund.

E no rosto dessa austeridade havia nomes que o tempo dificilmente apagará: Angela Merkel, José Manuel Durão Barroso, Vítor Gaspar.

Durante demasiado tempo venderam a austeridade como virtude moral. Sofrer passou a ser apresentado quase como um dever cívico. Cortaram-se salários, pensões, sonhos. Fecharam-se empresas. Destruíram-se vidas inteiras em nome de uma disciplina orçamental que parecia escrita não por economistas, mas por contabilistas sem memória humana.

E agora, ironicamente, até na Alemanha começam a ouvir-se críticas.

Porque a História tem destas vinganças discretas: quem empobrece os clientes acaba também por empobrecer a si próprio. A economia alemã começa a sentir o peso das políticas que impôs aos outros países europeus. Os mercados encolhem, as exportações ressentem-se e o motor europeu, durante anos apresentado como infalível, começa também a tossir.

Talvez só agora alguns percebam aquilo que os povos do sul sentiram na pele desde o primeiro dia: não se salva uma Europa destruindo metade dela.

E há qualquer coisa de poeticamente cruel em ver regressar à Alemanha o eco das políticas que espalhou pelo continente. Não por vingança — porque os povos não merecem pagar pelos erros dos governantes — mas porque a arrogância económica raramente sai impune.

Angela Merkel governou a crise como quem governa um castigo. Havia naquela austeridade uma dureza quase moralista, uma ideia antiga de superioridade do norte sobre os povos do sul, como se portugueses, gregos ou espanhóis fossem alunos preguiçosos merecedores de punição.

E pelo caminho perdeu-se uma parte da alma europeia.

A Europa que nasceu depois da guerra para unir povos transformou-se demasiadas vezes numa máquina fria de números, metas e défices, esquecendo que por trás das estatísticas vivem pessoas de carne, osso e medo.

Quanto a José Manuel Durão Barroso, a História provavelmente recordar-lo-á como um homem que escolheu o conforto do poder em vez da defesa do seu próprio povo. Um funcionário obediente da engrenagem franco-alemã num dos períodos mais duros para Portugal.

Mas mais do que procurar culpados, talvez importe perceber o que ficou.

Ficaram gerações marcadas pela emigração. Ficaram jovens que aprenderam demasiado cedo a palavra “precariedade”. Ficaram famílias partidas, casas perdidas, vidas suspensas entre recibos verdes e aeroportos.

Ficou um continente mais cansado.

Ainda assim, talvez haja agora uma pequena mudança no ar. Um murmúrio de cansaço perante políticas que transformaram a esperança numa conta por pagar. Talvez a Europa comece lentamente a perceber que não pode sobreviver eternamente alimentando-se da pobreza dos seus próprios povos.

E talvez um dia volte a recordar aquilo que parecia ter esquecido:

que a economia devia servir as pessoas
e não as pessoas serem sacrificadas à economia.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

a cave do sertorio- 2021

a violencia-2022

Morreu Kirk Douglas