o medo é irracional - 2025 2º revista
Vocês não sei, mas eu lembro-me.
Lembro-me de um país cinzento, fechado sobre si mesmo como uma casa onde as janelas passaram décadas sem se abrir. Um país onde a tristeza era confundida com respeito, o silêncio com virtude e a obediência com carácter. Um país educado à sombra longa de Salazar e ao moralismo severo do cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira, onde até a felicidade parecia ter de pedir licença para existir.
E depois chegaram eles.
Vieram do outro lado do mar, das ex-colónias, trazendo nos olhos o pó vermelho de Angola, o calor húmido de Moçambique, os cheiros da Guiné, os ritmos de Cabo Verde. Chegaram cansados, despojados, feridos da alma. Muitos tinham perdido tudo, menos a memória e o sotaque da infância.
Mas Portugal não viu a dor deles.
Viu apenas a diferença.
As mulheres usavam vestidos coloridos demais para este país habituado ao escuro. Os homens falavam alto demais para esta terra treinada no sussurro. Havia crianças mulatas a correr pelas ruas, casais mistos de mãos dadas, gargalhadas abertas nas varandas, música a sair das janelas dos bairros improvisados à volta das cidades.
E o medo nasceu.
Porque o medo nasce sempre quando o mundo muda de cor.
As pessoas olhavam aqueles portugueses vindos de África como se fossem estrangeiros chegados de outro planeta. Chamaram-lhes “retornados”, palavra fria e injusta, como se alguém pudesse “retornar” a um lugar onde nunca verdadeiramente vivera.
Lembro-me das frases.
“Vêm tirar-nos o trabalho.”
“Vêm ocupar as casas.”
“Vêm ficar com as mulheres.”
As mesmas frases antigas que a humanidade recicla sempre que alguém chega de fora trazendo novos rostos, novos cheiros, novos modos de viver.
E, no entanto, eles eram os nossos.
Portugueses de pele branca, negra, mestiça. Portugueses de outros sóis e outras paisagens. Portugueses que dançavam sem culpa, que cozinhavam com especiarias, que enchiam as noites de música e davam cor a um país habituado a vestir luto até nos dias de festa.
Talvez tenha sido isso que mais assustou Portugal:
a alegria deles.
Porque havia naquele povo uma liberdade que nós ainda não sabíamos viver.
Depois o tempo fez o que sempre faz. Misturou-nos. Lentamente. Como o mar mistura rios diferentes sem lhes perguntar a origem. Os filhos cresceram juntos, as vozes cruzaram-se, os sabores entraram nas cozinhas, os ritmos entraram nas festas, os amores aconteceram sem pedir autorização à História.
E Portugal mudou.
Ainda bem que mudou.
Por isso me entristece ver agora o mesmo medo a regressar, com palavras novas e o mesmo coração velho. Continuamos assustados com quem chega, como se esquecêssemos que também nós já fomos os diferentes, os indesejados, os olhados de lado.
Vocês não sei.
Mas eu acredito que um país só cresce verdadeiramente quando aprende a reconhecer-se também no rosto do outro.
Porque, no fundo, talvez sejamos todos isso:
gente à procura de um lugar onde o medo acabe
e a humanidade comece
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