portugal a agonizar -. 2014 1º revisao
O Portugal democrático nascido da revooluçao parece cansado.
Não morreu. Mas há dias em que respira devagar, como um velho combatente que já não reconhece o país que ajudou a construir.
Nunca como agora se falou de tanta gente sem trabalho, sem horizonte, sem sonhos que resistam ao fim do mês. Há uma geração inteira a viver em suspenso, empurrando dias vazios como quem empurra móveis numa casa demasiado pequena para tanta desilusão.
Os números da imigração voltam a lembrar os da década de 60. Filhos partem outra vez. Netos crescem longe. O país exporta juventude como antigamente exportava cortiça e vinho: em silêncio resignado.
E os que ficam apertam-se dentro das casas.
Casas que já foram símbolo de uma classe média orgulhosa e que agora voltam lentamente à lógica dos antigos cortiços. Debaixo do mesmo teto amontoam-se avós, filhos, netos, genros, cunhados, vidas inteiras empilhadas pela necessidade. Divide-se o pão, divide-se a conta da luz, divide-se até o desespero, porque a miséria, quando partilhada, pesa um pouco menos.
Há homens e mulheres com empregos que já não chegam para viver. Fazem “pescatas”, biscates pagos a preço de humilhação, tentando tapar os buracos de um mês que nunca acaba. Trabalha-se muito para continuar pobre.
E nas filas dos supermercados vê-se um país inteiro resumido às mãos de quem conta moedas antes da caixa. Compras pequenas, embrulhadas no regaço, leite escolhido ao cêntimo, pão contado quase com vergonha.
O Portugal democrático parece cansado.
E, no entanto, o Estado continua a cobrar. IRS, IUC, IMI — siglas frias, sem rosto, que entram nas casas como cobranças inevitáveis de uma máquina que nunca dorme. Para quem ainda não vendeu o carro. Para quem ainda tenta salvar a casa. Para quem continua a resistir.
Enquanto isso, o país vai-se vendendo aos pedaços. Empresas, terras, energia, património. Como uma família desesperada que começa por vender a prata da casa e termina a desfazer-se da própria memória.
E dói perceber que muitas das conquistas sonhadas depois da revolução se foram tornando frágeis. A liberdade de imprensa, por exemplo, tantas vezes parece sobreviver apenas em pequenas vozes dispersas no mundo digital — um mundo a que muitos já nem chegam, esmagados pela sobrevivência diária ou pelo ruído incessante da propaganda.
Portugal parece preso entre o cansaço e a resignação.
Tentam nascer alternativas, mas quase sempre são esmagadas por máquinas partidárias, interesses instalados e discursos fabricados. Há quem ainda tente passar a palavra, falar de esperança, imaginar um país diferente. Mas a mensagem perde-se muitas vezes no barulho, no descrédito, no medo ou simplesmente na exaustão coletiva.
E talvez seja isso o mais perigoso:
não a pobreza,
não a crise,
não o desemprego.
Mas o momento em que um povo começa lentamente a deixar de acreditar em si próprio.
Porque os países não morrem apenas de dívidas ou de má governação.
Morrem quando perdem o brilho nos olhos.
Quando trocam a esperança pela resignação.
Quando deixam de sonhar futuro.
E às vezes, olhando Portugal, há dias em que parece que a saudade já não é apenas do passado.
É também do país que ainda podíamos ter sido.
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