a fina flor do entulho - 2026 2ª revisao

 O meu pai era um homem feito de uma matéria antiga, dessas que já quase não se fabricam. Gostava das pessoas como se olha a terra depois da chuva: sem perguntar de onde vêm as pedras ou para onde correm as águas. Para ele, pobres e ricos sentavam-se todos à mesma mesa invisível da condição humana. Aos erros alheios dava sempre desconto, como quem conhece demasiado bem as fraquezas do mundo para se armar em juiz.

Chamava-se, a rir, “o último dos moicanos”. E talvez fosse. Havia nele qualquer coisa de resistente e solitária, como uma azinheira velha no meio do campo.

Mas existia uma tribo que lhe provocava um cansaço particular na alma. Gente a quem chamava, com aquele génio cruel e luminoso do humor alentejano, “a fina flor do entulho”.

Ah… a fina flor do entulho.

Criaturas sem casa no próprio destino, mas sempre de peito enfunado como velhos fidalgos arruinados. Gente que vivia de reflexo, como lua pobre dependente da luz dos outros. Andavam colados aos importantes para ver se lhes pegava alguma grandeza por osmose. Apareciam em inaugurações, vernissages, cocktails, missas, funerais e lançamentos de livros que nunca leriam. Entravam sem convite, sorriam sem alegria e fotografavam-se ao lado da importância como quem tenta enganar o espelho.

E depois havia as fotografias.

Meu Deus, as fotografias.

Aquela necessidade aflita de existir dentro da moldura certa. O braço esticado, o sorriso ensaiado, o olhar treinado para a eternidade efémera das redes sociais. Como mendigos de brilho, recolhendo migalhas de atenção à porta dos salões.

O meu pai olhava para eles em silêncio, com um meio sorriso cansado, como quem vê pardais convencidos de que são pavões. E então, num sopro de ironia alentejana, dizia:
— “Já não lhes basta serem a fina flor do entulho… ainda são burros que nem cornos.”

E o mais bonito era isto: muitos agradeciam a frase sem perceber o insulto, inchados de vaidade, como perus em dia de feira.

Hoje penso muitas vezes nele quando vejo esta romaria moderna de gente que vive de evento em evento, de selfie em selfie, como almas vazias à procura de reflexo. Não procuram beleza, nem arte, nem encontro. Procuram cenário. Procuram prova. Procuram aparecer.

E há qualquer coisa profundamente triste nisso.

Porque uma pessoa pode não ter dinheiro, nem nome, nem importância nenhuma neste mundo. Mas perder a dignidade para parecer importante aos olhos dos outros — isso é uma pobreza que não tem remédio.

E talvez o meu pai tivesse razão: há gente que já não vive. Apenas posa.

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