o claud - 2019 1º revista
Já que gostaram da história de ontem, hoje conto-vos outra.
Mas esta é minha.
No início dos anos 90, vivia numa quinta para os lados do Louredo. A casa onde morava com a minha filha fazia parte de um daqueles conjuntos rurais antigos, cheios de anexos e divisões com entradas independentes, construídos ao sabor das necessidades e não dos arquitetos.
Nessa altura, havia sempre alguém sem rumo. Amigos de amigos que se separavam, que se zangavam com os pais, que perdiam o emprego ou simplesmente perdiam o chão. E, sem grande cerimónia, acabavam instalados naqueles quartos vazios — de borla, claro, porque nessa idade ainda acreditávamos que o mundo se resolvia com portas abertas e panelas cheias.
Como os meus pais tinham um restaurante, eu aparecia em casa carregada de comida. E como sempre comi pouco, aquilo transformava-se num jantar coletivo quase todas as noites. Sentávamo-nos à mesa como uma pequena tribo improvisada, gente meio perdida que a vida tinha juntado ali por acaso.
Era uma espécie de comunidade hippie sem líder espiritual.
Ou talvez o líder fosse a fome.
Ou a solidão.
E foi nesse tempo que apareceu o Claud.
Um americano magro, de mochila cansada e olhar de quem já tinha dormido em demasiadas estações de comboio. Andava pelo mundo sem dinheiro nem destino certo e acabou — nem sei bem como — instalado num daqueles quartos.
O Claud ficou seis meses.
Falava pouco, sorria muito e tinha mãos extraordinárias. Era marceneiro. Enquanto nós sobrevivíamos ao caos dos vinte e muitos anos, ele entretinha-se a reparar móveis, cadeiras, portas, gavetas. Deu nova vida a quase tudo o que havia naquela casa, como se tivesse aprendido a conversar com madeira antes de aprender a conversar com pessoas.
Às vezes lembro-me dele curvado sobre uma mesa velha, concentrado, enquanto o sol da tarde entrava pelas janelas e nós discutíamos a vida como quem ainda acredita ter tempo infinito pela frente.
Depois, um dia, o Claud fez as malas.
Despediu-se sem drama, como fazem os viajantes verdadeiros, e continuou o seu caminho pelo mundo. Durante anos não soube mais nada dele. A vida, entretanto, levou-me para outros lugares, outras casas, outras perdas.
Até que um dia chegou uma carta.
Reconheci o nome no envelope e senti aquele estranho aperto que trazem as pessoas que julgávamos perdidas no tempo.
O Claud tinha regressado aos Estados Unidos. Na carta agradecia-me o acolhimento, a amizade, a comida partilhada, os meses em que tivera um teto sem perguntas nem condições. E lá dentro vinha um vale de correio de 500 dólares.
Naquela época, era muito dinheiro.
Escrevia ele que era para eu gastar em férias.
E foi exatamente isso que fiz.
Peguei no dinheiro, juntei os amigos que ainda restavam daquela velha comunidade improvisada e fomos todos de férias com os dólares do Claud. Tirámos fotografias, rimos até de madrugada, vivemos dias leves como já não sabíamos viver. Depois revelámos as fotos e enviámo-las para ele, para que pudesse ver a felicidade que tinha oferecido à distância.
Ainda trocámos cartas durante alguns anos.
Depois o Claud morreu.
Mas ficou para sempre guardado num lugar bonito da minha memória. Porque, fora os meus pais, foi a única pessoa que alguma vez me pagou férias.
E talvez a amizade seja exatamente isso:
alguém que passa brevemente pela nossa vida,
arranja os móveis partidos da casa
e, sem saber, também compõe um pouco a alma da gente.
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