Ai, Carlos - 2025 2º revista
Hoje, no café, o país inteiro cabia em duas mesas de fórmica, três bicas curtas e uma discussão sem futuro.
De um lado, um homem da minha idade, rosto gasto pelo tempo e pelas conversas repetidas, jurava ter votado no Chega porque os imigrantes vieram roubar o pão aos portugueses. Dizia aquilo com a solenidade dos homens que nunca carregaram verdadeiramente o peso do mundo às costas.
Do outro lado, um quarentão eterno aprendiz da vida defendia a CDU com indignação revolucionária. A culpa, dizia ele, era dos patrões que pagam mal. Que se em Portugal se ganhasse como em França, três ou quatro mil euros, até ele ia cavar terra de sol a sol.
E eu escutava-os em silêncio, escondendo o riso dentro da chávena.
Porque conheço os dois.
O primeiro reformou-se ainda novo, depois de uma queda de andaime e de uma perna partida que lhe abriu as portas da invalidez. Invalidez curiosa, essa, que lhe permite correr pelas manhãs, frequentar ginásios, passear sem pressa e viver dias inteiros com um tempo que nunca sobra aos que trabalham.
O segundo coleciona cursos profissionais como quem coleciona cromos antigos. Já estudou de tudo um pouco, talvez para evitar especializar-se na única coisa que realmente mete medo: levantar-se cedo todos os dias para ganhar a vida.
E ali estavam ambos, inflamados contra o “mercado de trabalho”, como dois náufragos que nunca chegaram a entrar no mar.
Enquanto falavam, lembrei-me do Carlos Caveira.
Ah, o Carlos…
Figura perdida dos anos 80, homem grande, voz funda, alma desarrumada pelas drogas e pelas noites sem rumo. Nas manifestações daquela época, quando o povo saía à rua a pedir justiça e trabalho, lá aparecia ele também, de punho erguido e garganta aberta para o mundo.
— “Queremos trabalho! Queremos trabalho!”
Gritava mais alto do que todos, como se a própria fome lhe morasse na voz.
E ao passar pela Rua da Lagoa, um comerciante de palha, homem prático e sem paciência para teatros, chamou-o à parte:
— Ó Carlos, amanhã tenho trabalho para ti.
Conta-se que o Carlos ficou quase ofendido. Endireitou-se todo, olhou o homem com espanto e respondeu:
— Com tanta gente na manifestação… foi logo ver-me a mim?!
Hoje, tantos anos depois, percebi que o Carlos não morreu sozinho.
Multiplicou-se.
Anda por cafés, redes sociais e mesas de conversa. Grita contra governos, patrões, estrangeiros e destinos. Revolta-se contra o trabalho como quem protesta contra a chuva.
E eu, olhando aqueles dois homens envelhecidos antes do tempo, pensei que Portugal às vezes parece isto:
um país inteiro a pedir trabalho
com medo que alguém lho dê.
Ai, Carlos…
há mais como tu
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