gala de Ouro da Sic - 2017 1º revisao
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abertura da Gala dos Globos de Ouro fez-me recuar muitos anos e lembrar a velha Rádio Clube de Redondo.
Naquele tempo, os rapazes da rádio queriam fazer anúncios modernos, criativos, “fora da caixa”, como agora se costuma dizer. O problema é que, quase sempre, aquilo saía com um encanto involuntário entre o genial e o profundamente piroso.
Eram coisas do género:
— “Moço… não te drogues, anda de mota!”
Seguido, claro, do nome da empresa patrocinadora, dito com solenidade publicitária e sotaque carregado do Alentejo.
Ou então aquela maravilhosa pérola:
— “Aníbal… tanta coisa, tanta coisa!”
E lá vinha depois a descrição do que o pobre do Aníbal vendia.
Mas atenção: isto só tem graça verdadeira se imaginarem tudo dito em sotaque de Redondo, arrastado, musical, com aquele dramatismo natural de quem transforma qualquer frase banal num acontecimento radiofónico.
Ora foi exatamente essa memória que me veio à cabeça ao ver a abertura da Gala.
Notava-se o esforço. Queriam ser modernos, irreverentes, cheios de humor e piscadelas de olho à atualidade. Queriam fazer uma coisa “à americana”, sofisticada e divertida.
Mas saiu-lhes aquela mistura desconfortável de piada ensaiada, excesso de entusiasmo e falta de graça genuína. Ficou tudo tão artificial, tão carregado de intenção cómica, que parecia um daqueles anúncios antigos da rádio local: feito com boa vontade, pouco orçamento e demasiada confiança.
E há uma coisa cruel no humor: quando uma piada falha, não cai apenas no vazio — faz eco.
A abertura dos Globos teve exatamente esse eco embaraçoso de festa de escola que sonhava ser Broadway. Uma espécie de espetáculo preso entre a vontade de parecer cosmopolita e a inevitável tendência nacional para transformar modernidade em feira popular.
Mas talvez haja também qualquer coisa de enternecedor nisso.
Portugal continua a ser aquele país onde, no fundo, até o glamour tropeça no tapete da sala e acaba a falar com sotaque de Redondo.
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