a fina flor do entulho - 2026 1º revisao

 O meu pai era um homem raro. Gostava de quase toda a gente — e digo “quase” porque santo também não era, nem queria ser. Para ele não havia pobres nem ricos, doutores nem analfabetos, gente da cidade ou do monte. Havia apenas pessoas. E mesmo quando alguma fazia porcaria da grossa, ele arranjava sempre uma desculpa, um remendo moral, uma espécie de perdão alentejano servido em tom de resmungo e copo de vinho.

Chamava-se a si próprio “o último dos moicanos”, talvez porque sabia que aquele jeito de olhar os outros com humanidade estava em vias de extinção.

Mas havia uma espécie humana que lhe fazia comichão na alma: aquilo a que ele baptizou, com a precisão cruel do humor alentejano, “a fina flor do entulho”.

E quem eram estes espécimes?
Regra geral, gente que já não tinha onde cair morta, mas continuava a desfilar medalhas imaginárias ao peito. Criaturas especialistas em viver por procuração da importância alheia. Encostavam-se aos ricos como lapas sociais, frequentavam eventos onde nunca tinham sido convidados e dominavam a arte olímpica de aparecer em fotografias ao lado de quem interessava. Não eram ninguém, mas trabalhavam arduamente para parecer alguém.

O meu pai observava-os com aquele sorriso enviesado de quem já viu demasiada feira humana para se deixar impressionar. E, quando o espectáculo atingia níveis particularmente patéticos, largava a sentença:
— “Já não lhes basta serem a fina flor do entulho… ainda são burros que nem cornos.”

O mais extraordinário era que muitos nem percebiam que estavam a ser insultados. Sorriam, vaidosos, como se lhes tivessem chamado aristocratas.

E vem isto a propósito de quê?
De olhar à volta e perceber que a praga se multiplicou. Agora andam de evento em evento, telemóvel em riste, a coleccionar selfies como antigamente se coleccionavam santinhos. Já não vivem os momentos: posam para eles. Importa menos estar do que parecer estar. O altar moderno é o Instagram e a devoção mede-se em likes.

São tristes. Tragicamente tristes.
E o pior é que nem sabem.

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