o lixo não recolhido - 2017 2ª revisao
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E lá tenho eu mais uma história para contar.
Às vezes penso que talvez tenha tantas histórias porque nunca aprendi a ficar quieta diante do caos. Ou talvez seja apenas a tal irrequietude de que a minha mãe fala desde sempre, como quem descreve um defeito que o tempo nunca conseguiu curar.
Não sei.
Só sei que a vida parece gostar de me testar precisamente nos dias em que o corpo já não consegue mais.
Depois de uma semana inteira de trabalho e de dois espetáculos ao fim de semana, eu só queria descanso. Um sofá. Silêncio. A lentidão simples de quem sobreviveu aos dias.
Mas o domingo tinha outros planos.
A água começou a entrar devagar, quase em segredo, como fazem as tragédias pequenas que ninguém leva a sério no início. Primeiro uma poça tímida. Depois outra. Até que dei por mim de pés mergulhados num rio doméstico, água pelos tornozelos e a casa inteira a respirar humidade.
Havia qualquer coisa de absurda naquela cena: eu, cansada até aos ossos, a olhar para o chão inundado enquanto lá fora o mundo seguia normalmente, como se as catástrofes íntimas nunca merecessem sirenes.
Liga-se para os bombeiros.
Mas a água ainda não chegava ao meio das pernas. Pelos tornozelos, aparentemente, ainda não é emergência. Existe uma medida oficial para o desespero.
Liga-se para os serviços municipalizados.
Fechados. É domingo. Como se os canos públicos respeitassem folgas e horários de expediente.
Liga-se para a Proteção Civil.
Também não há resposta possível.
E então acontece aquilo que verdadeiramente sustenta o mundo quando as instituições falham:
aparecem pessoas.
Seis amigos.
Seis criaturas cansadas, com vidas suas, que pegaram em baldes, vassouras, esfregonas e vieram lutar comigo contra aquela maré absurda que invadira a casa sem pedir licença.
Durante seis horas varremos água.
Seis horas de braços doridos, roupa encharcada, móveis arrastados, madeiras inchadas, lama, baldes despejados vezes sem conta. Parecíamos marinheiros pobres tentando impedir o naufrágio de uma embarcação demasiado velha.
E no meio daquela batalha ridícula e doméstica pensei numa velhinha de setenta anos sozinha.
Quem lhe salvaria a casa?
Quem lhe espremeria os panos?
Quem lhe levantaria os móveis?
Quem lhe diria “calma, isto resolve-se”, mesmo sem saber se resolve?
Talvez o mundo se divida apenas entre os que têm quem apareça
e os que enfrentam a água sozinhos.
Quando tudo terminou já era quase meia-noite.
À porta ficaram montes de lixo molhado, madeiras mortas, restos de objetos que poucas horas antes ainda faziam parte da vida quotidiana. Há sempre qualquer coisa de violento em ver as nossas coisas transformadas subitamente em entulho.
Enviei um e-mail para a Câmara. No assunto escrevi “URGENTE”, talvez porque ainda existe em mim uma certa fé ingénua nas palavras.
Dormimos pouco.
O descanso do guerreiro, dizem.
Mas os guerreiros modernos acordam cedo para continuar a resolver problemas que ninguém tinha previsto.
Na manhã seguinte o lixo continuava lá, imóvel e húmido, como um monumento à inutilidade da pressa burocrática.
Ligámos novamente.
Do outro lado disseram que o e-mail ainda não tinha chegado ao setor correto. E que, mesmo que tivesse chegado, a recolha não seria feita porque “não estava prevista”.
Não estava prevista.
A frase ficou a ecoar dentro de mim como um verso triste sobre o funcionamento do mundo.
Também eu não tinha previsto passar o domingo inteiro a expulsar água de casa por causa da pressão excessiva das condutas públicas. Também eu tinha sonhado com descanso, lençóis limpos e silêncio. Mas quando a vida transborda, alguém tem de pegar no balde.
Do outro lado da linha explicavam-me mapas, procedimentos, horários, competências.
E eu, cansada demais para discutir com labirintos administrativos, respondi apenas:
— Percebo. Quando puderem, coloquem no mapa.
Agora estou sentada no sofá, finalmente quieta, enquanto o corpo inteiro me dói como se carregasse chuva dentro dos ossos.
E penso que talvez a maior tragédia não seja a inundação.
Talvez seja esta incapacidade crescente de olhar para além das regras. Esta gente que vive presa ao rame-rame dos carimbos, incapaz de compreender que a vida acontece precisamente fora dos formulários.
Mas isso sou eu.
Eu, que passei a vida a apagar fogos.
Mesmo aqueles
que nunca chegaram a existir no mapa.
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