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tio Tó - 2016 1ª revisao

 Oh Tio Tó e Tia Teresa, fiquem descansados: eu e os restantes contribuintes portugueses autorizamos, com enorme generosidade cristã e republicana, que escolham o colégio privado dos meninos. À vontade. Se têm dinheiro para isso, força. Cada um educa os filhos onde entende e onde a carteira permite. Agora, se um dia a conta apertar — porque a vida às vezes tem esse mau gosto democrático — não se preocupem: os nossos filhos recebem os vossos de braços abertos na escola pública. Sem dramas. Há sempre lugar para mais uma carteira e uma sandes embrulhada em papel de alumínio. “Ah, mas a qualidade da escola pública não é a mesma”, dizem os tios, escandalizados, como quem descobriu humidade numa casa de férias. Pois claro que não é perfeita. Mas tenham calma. Talvez daqui a dois ou três anos melhore um bocadinho, precisamente com o dinheiro que o Estado deixar de despejar em colégios privados que cobram mensalidades capazes de financiar uma pequena república independente. Portanto, se...

festival capote - 2022 2º revisao

 Este ano não fui ao Festival Capote. Que me perdoem os amigos que subiram ao palco e os companheiros das associações que lhe deram vida. Mas não fui. Não consegui. A verdade é simples: sem o Alberto, faltava-me o caminho. Era ele quem abria as portas da música antes de nós. Chegava com o programa dobrado no bolso e aquele entusiasmo quase infantil de quem tinha descoberto um segredo. Dizia-nos: “Este não podem perder.” “Escutem este miúdo.” “Esta banda ainda é verde, mas vai crescer.” E nós íamos atrás dele, como quem segue alguém que sabe reconhecer beleza antes dos outros. Era o Alberto quem comprava os bilhetes, quem chegava primeiro, quem nos esperava junto às grades, impaciente e feliz. E era também ele quem se zangava quando falávamos demais entre músicas ou quando não tínhamos escutado um concerto até ao fim, como se cada canção merecesse respeito absoluto. O Alberto não gostava apenas de música. O Alberto vivia-a. E o Capote era uma espécie de casa sagrada onde e...

festival capote - 2022 1º revisao

 Este ano não fui ao Festival Capote. Que me perdoem os amigos que lá atuaram e os colegas das associações envolvidas. Mas não consegui. Sem o Alberto, não dava. Era ele quem nos entusiasmava com as novas propostas musicais. O Alberto via o programa inteiro e dizia-nos quais eram os concertos imperdíveis, aqueles músicos ainda “verdes”, mas já cheios de qualquer coisa rara, quase secreta. Era ele quem comprava os bilhetes, o primeiro a chegar ao recinto e o último a aceitar que a noite tinha acabado. E ainda ralhava connosco quando não tínhamos ouvido todos os temas com a atenção devida. O meu amigo Alberto era um apaixonado pela música, mas pelo Capote tinha uma devoção especial. E, como acontece com as paixões verdadeiras, contaminava toda a gente à volta. Depois do festival vinham as conversas intermináveis: discutir aquele músico, aquela nota ao lado, o som, as luzes, os arranjos, os excessos e os milagres. O Capote não acabava quando se apagavam os palcos. Durava dias dent...

fina flor do entulho - 2026 3ª revisao

 O meu pai era homem de gostar do mundo. Gostava das pessoas com a indulgência com que os sobreiros aguentam o vento: sem pressa de condenar, sem necessidade de compreender tudo. Via a miséria, a vaidade, as pequenas crueldades humanas, e ainda assim encontrava sempre uma desculpa terna para os pecados dos outros. Dizia que ninguém nasce mau — às vezes nasce apenas perdido, torto da vida, cansado por dentro. Sempre lhe chamei, entre gargalhadas, “o último dos moicanos”. E havia verdade nisso. Tinha qualquer coisa de espécie em vias de extinção: uma humanidade antiga, desajeitada e funda, feita de ironia, silêncio e compaixão. Mas existia uma fauna muito particular que lhe eriçava o espírito. Chamava-lhes, com aquele talento alentejano para transformar insultos em poesia: — “A fina flor do entulho.” E nunca expressão serviu tão bem a tanta gente. Eram os aristocratas da ruína, os condes da aparência, os marqueses do vazio. Gente sem reino nem cadeira onde cair morta, mas sempr...

a fina flor do entulho - 2026 2ª revisao

 O meu pai era um homem feito de uma matéria antiga, dessas que já quase não se fabricam. Gostava das pessoas como se olha a terra depois da chuva: sem perguntar de onde vêm as pedras ou para onde correm as águas. Para ele, pobres e ricos sentavam-se todos à mesma mesa invisível da condição humana. Aos erros alheios dava sempre desconto, como quem conhece demasiado bem as fraquezas do mundo para se armar em juiz. Chamava-se, a rir, “o último dos moicanos”. E talvez fosse. Havia nele qualquer coisa de resistente e solitária, como uma azinheira velha no meio do campo. Mas existia uma tribo que lhe provocava um cansaço particular na alma. Gente a quem chamava, com aquele génio cruel e luminoso do humor alentejano, “a fina flor do entulho”. Ah… a fina flor do entulho. Criaturas sem casa no próprio destino, mas sempre de peito enfunado como velhos fidalgos arruinados. Gente que vivia de reflexo, como lua pobre dependente da luz dos outros. Andavam colados aos importantes para ver se...

a fina flor do entulho - 2026 1º revisao

 O meu pai era um homem raro. Gostava de quase toda a gente — e digo “quase” porque santo também não era, nem queria ser. Para ele não havia pobres nem ricos, doutores nem analfabetos, gente da cidade ou do monte. Havia apenas pessoas. E mesmo quando alguma fazia porcaria da grossa, ele arranjava sempre uma desculpa, um remendo moral, uma espécie de perdão alentejano servido em tom de resmungo e copo de vinho. Chamava-se a si próprio “o último dos moicanos”, talvez porque sabia que aquele jeito de olhar os outros com humanidade estava em vias de extinção. Mas havia uma espécie humana que lhe fazia comichão na alma: aquilo a que ele baptizou, com a precisão cruel do humor alentejano, “a fina flor do entulho”. E quem eram estes espécimes? Regra geral, gente que já não tinha onde cair morta, mas continuava a desfilar medalhas imaginárias ao peito. Criaturas especialistas em viver por procuração da importância alheia. Encostavam-se aos ricos como lapas sociais, frequentavam eventos...

a fina flor do entulho - 2026

  O meu pai era um homem que gostava praticamente de toda a gente. Nao fazia distinção, pobres, ricos, letrados, analfabetes, do campo da cidade, nao havia gente má, arranjava sempre uma desculpa para actitudes menos boas que as pessoas cometiam. Chamava-lhe mesmo " o ultimo dos moicanos". Havia no entanto um tipo de pessoa que ele não achava muita graça, chamava-lhes "a fina flor do entulho". e quem era esta gente? A maioria era gente que já não tinha onde cair morto, mas que continuava a puxar pelos galões ou gente que andava atras dos ricos para parecer que tinha onde cair. Gente que aparecia em tudo o que fosse "importante" muitas vezes sem convite, que se colava a gente convidada para frenquentar locais "finos" e gente que gostava de aparecer nas fotografias para fazer de conta que eram gente. como tinha um humor particular, um humor à alentejana, muitas vezes fazia algumas considerações a esse tipo de pessoas, que regra geral não percebiam,...