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O Raimundo e o seu mundo paralelo

  ha uns dias que ando a pensar no Raimundo. O Raimundo foi meu colega no liceu, era um puto estranho, que nunca percebia nada, que fazia muita merda mas achava sempre que estava certo, parecia que vivia num mundo só dele. Na maior parte do tempo aquilo dizia-me pouco, o gajo era assim, que fosse nem era meu amigo para quê moer-me. Mas depois havia as aulas praticas de Quimiotecnia. Ali tínhamos que ter muito cuidado com as substancias que juntávamos, com as temperaturas, com a exposição dos químicos ao ar, sendo eu uma "parva " desde muito cedo, como ninguém queria ficar com ele eu ficava e arrastava comigo o Zé Pedro Torres, um amigo que já partiu. Aquelas aulas eram um desassossego e um desafio à integridade fisica. O Raimundo a querer juntar o que se tinha que distanciar, eu a brigar com ele sobre as ligações e a explicar-lhe os riscos das experiencias, ele cheio de certezas das suas opções, lá no mundo dele deveriam dar certo, e o Zé Pedro a rir o tempo inteiro. Cada au...

O primo Real

  As nossas pessoas voam para outras paragens mas só partem quando deixamos de as lembrar. Quero contar-vos uma historia que vai manter vivo o primo Real, que hoje voou para longe, e a prima Hermínia, que já anda por outras paragens há uns anos. O meu bisavô Carlos e a minha bisa Eugenia tiveram 3 filhos, o meu tio avô Afonso, o meu avô e a Madrinha Real. O 1º e a ultima duas santas criaturas, saíram ao pai. O meu avô um ser com requintes de malvadez que foi buscar à mãe. o meu tio Afonso teve 2 filhas e creio que criou outras 2 filhas só da esposa, não as conheci muito bem. A madrinha Real era mãe do primo Real e da minha prima Hermínia, uma mulher de baixa estatura, de sorriso doce que tinha uma das melhores gargalhadas de que me lembro, um pouco como as da minha mãe. Quando ia de ferias para a aldeia, havia sempre um dia em que queria porque queria, ir dormir com as minhas primas Tonica e a irmã Alda, todas as vezes a prima Hermínia e a tia Bia tentavam demover-me "tu depois c...

educação

A educação tem sido feita ao sabor das teorias da Educação. 1º era a do posso quero e mando dos adultos sobre os filhos! Depois nos anos quentes da Revolução, foi um pouco ao sabor do vento, um sopapo alternava com uma liberdade adquirida na época, um pai mais austero contrapunha a um pai amigalhaço! Nos anos 80, chegou a vez de se dar aos mais novos tudo o que queriam, deixar fazer tudo para os não traumatizar e jamais dizer não! A Escola correspondeu sempre, 1º eram as reguadas por cada erro, seguiu-se o passar tudo e todos não importava como e por fim a selecção por capacidades! Para formar a geração mais bem capacitada do País! Esta geração começou a ser criada nos bancos da Escola primaria, onde a selecção das crianças era feita pela profissão dos pais. Salas de filhos de professores e doutorados, Salas de operários, salas de filhos de funcionários públicos e por ai vai... Sei do que falo. Logo na 1ª classe e depois da directora da Escola de S. Mamede ter detectado o erro, fui cha...

Dia dos avós

  Dizem que hoje é o dia dos avós. Eu já não tenho avós mas eles fazem parte de mim. Conheci 3 avós e 2 bisas, todos eles me marcaram. A minha avó Zefa, mae do meu pai,esteve louca muitos anos, morreu quando eu tinha 8 anos, antes disso vivia lá em casa e punha-me maluca com a mania de me guardar e esconder os brinquedos, era uma espécie de "irmã" chata que eu tinha. Na época não achava graça nenhuma pois não percebia o que era a loucura, só sabia que era uma adulta, que fazia disparates e que não me deixava brincar sossegada. Era chato pois não podia brigar com ela,já que o meu pai não deixava "respeita a avó, ela não sabe o que faz, mas tens que a aceitar assim, nem que é tua avó, mas tu e eu sabemos" e assim eu lá tinha que conviver o melhor possível com ela, adorava passear, mesmo louca estava sempre pronta para ir para a rua e nas festas estava sempre a dançar! Foi com esta convivência que aprendi a aceitar cada um como é, goste ou não! Havia o meu avô Antón...

Filó

  Filó, foi minha colega em Santa Clara, na época todos sabíamos que vivia só com o pai e o irmão porque a mãe tinha sido expulsa de casa, o porquê não se sabia ao certo, mas havia rumores, muitos rumores, talvez por esse motivo ela fosse tão reservada. Ficávamos na mesma carteira em francês e criamos alguma amizade, o que me permitiu saber que ela ajudava a avó já velhinha a cuidar da casa, mãe do pai que também vivia com eles. Aquilo não me impressionava por aí além, afinal também eu fazia algumas coisas em casa para ter mesada dobrada, mas só bem mais tarde soube que o que ela fazia era muito mais que limpar o pó ou lavar as escadas, ela realmente tomava conta da casa, cuidava das roupas, ia ás compras, tratava do irmão mais novo, enfim sem a mãe em casa ela era a "mulher" da casa, o que não era de todo o meu caso. a vida seguiu, eu fui para o Liceu e a Filo para a Gabriel Pereira, mas sempre que nos encontramos colocávamos algumas conversas em dia. No meio da adolescência...

O guinapo

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  Estávamos ai em 79 ou 80, não me lembro já muito bem. Zé Guinapo e um amigo holandês que era escritor prepararam uma intervenção artística, era como se chamava na época. Do Café Portugal até ...não se sabia onde... havia que seguir varias fitas coloridas penduradas nos lugares mais improváveis e ao longo do caminho eram encontrados pedaços de papeis com escritos que eles apelidaram de poemas, uns com mais sentido outros com palavras apenas, que por mais que as lesemos não faziam sentido nenhum. Para quem se arriscou nessa empreitada ( e eu fui uma delas) o desfecho foi no palácio D. Manuel, onde no 1º andar estava deitado no chão completamente nú metido num espaço cheio de areia o artista...Zé Guinapo era a obra de arte. à sua volta sons e mais sons, uns mais agudos outros mais graves, e de vez em quando ouviam-se gravações de poemas ( ou amontoados de palavras) em português ou em Holandês...ali estivemos durante um tempo, ate que Guinapo se levantou e embrulhado num lençol deix...

Red Line Evora

  Hoje ligaram ao meu pai, para lhe dizer que havia uma casa a venda na Rua Egas Moniz. Ele disse que nao estava interessado e que essa era a rua das meninas da vida. Quando eu soube la o lembrei que isso era no tempo em que ele era novo, hoje felizmente viviam em todo o lado. Ok, la disse, mas na cabeça dele aquela e a Rua Manuel de Olival, ainda sao as ruas dos bordeis. as cidades tinham todas as suas Red Line. Este acontecimento lembrou-me uma historia da minha avó Zulmira. Mulher nascida e criada na aldeia da Venda, só veio para Évora quando vendeu a herdade na Serra d' Ossa. Era por isso desconhecedora dos costumes e preceitos de Évora. Um belo dia, pouco depois de se mudar para os Canaviais, veio as compras a cidade. Desceu do autocarro a Porta de Avis e para encurtar caminho, foi direita ao Largo Chao das Covas e desceu a Rua Manuel de Olival para ir dar a da Lagoa, onde era suposto ir comprar uns sapatos. Comprou os sapatos, foi fazer outras compras e no fim la voltou de n...