o meu neto pos-me a cavar- 2024 1ª revisao
Já vos disse que o meu neto tem uma horta? Pois bem. Na sexta-feira, o rapaz enfrentava um problema de grande dimensão agrícola: precisava de apanhar as batatas. Eram muitas e, sozinho, ia demorar uma eternidade.
Depois de alguma reflexão estratégica, abordou-me com uma proposta irrecusável:
— Estive a pensar... não queres ajudar-me? Depois dou-te umas batatas. É que estão caras e assim poupas dinheiro.
Confesso que fiquei impressionada. Nem os melhores vendedores conseguem apresentar uma oferta tão convincente. Com um argumento destes, ganhou logo uma ajudante.
Havia apenas um pequeno detalhe: eu nunca tinha apanhado batatas na vida.
— Não tem problema, eu ensino-te.
E assim foi. Após uma breve formação intensiva em "Bataticultura para Principiantes", lá fui eu arrancar batatas da terra com o empenho de quem procura tesouros escondidos.
Se o meu pai me estiver a observar de algum lado, deve estar a gargalhar sem parar. Durante anos tentou, sem sucesso, convencer-me a pegar numa enxada ou a cavar um pedaço de terra. Nunca conseguiu. Nem sermões, nem pedidos, nem exemplos práticos resultaram.
Mas chega o neto, com meia dúzia de palavras bem escolhidas, uma promessa de batatas e uma referência ao preço dos legumes, e eu vou toda contente para a lavoura.
É nestas alturas que percebemos como a vida dá voltas. O meu pai falhou onde a inflação e um neto empreendedor triunfaram.
Agora só me resta uma preocupação: se ele já me convence a apanhar batatas, o que mais me irá acontecer? Qualquer dia dou por mim a plantar cebolas, a mondar alfaces ou, pior ainda, a acordar ao nascer do sol porque "é a melhor hora para trabalhar na horta"... e ainda agradeço a oportunidade
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