Crónica de uma greve que vem de longe - 2026 1º revisao
Crónica de uma greve que vem de longe
Contava-me o meu pai que a primeira greve em que participou foi na década de 1940. A luta era contra o aumento do custo de vida e a escassez dos bens essenciais. Os trabalhadores rurais estavam literalmente a morrer de fome e decidiram fazer greve. A GNR apareceu em força. Houve pancada sem dó nem piedade, mas ninguém desmobilizou. O que estava em causa era simples: poder alimentar as famílias.
O Zé Barrenho, irmão da minha bisavó, perdeu um olho nesses confrontos, para os lados da Vidigueira. Na década de 1950, o meu pai voltou à greve, novamente ao lado dos trabalhadores rurais, desta vez pela melhoria dos salários. Nas aldeias, vilas e cidades, os trabalhadores reuniam-se em grupo para ganhar força e recusavam trabalhar enquanto os valores das contratações não correspondessem ao que reivindicavam. Em alguns desses largos ficaram corpos no chão. Houve trabalhadores mortos às mãos da GNR.
Mas foi a greve de 1962 que mais marcou a história dos trabalhadores rurais. Nessa altura, o meu pai já não trabalhava no campo. Ainda assim, fez greve. A reivindicação era a conquista das oito horas de trabalho diárias, o fim dos dias intermináveis de sol a sol. Não lutava por um direito que lhe faltasse; lutava por solidariedade com os seus camaradas. E pagou caro por isso. Um guarda partiu-lhe quatro costelas. Nunca se arrependeu. As oito horas acabaram por ser conquistadas.
Vale a pena lembrar isto quando, hoje, se fala de greves como incómodos passageiros que atrapalham o trânsito ou atrasam serviços. No tempo do fascismo, fazer greve era arriscar a liberdade, a integridade física e, em alguns casos, a própria vida. Havia prisões, espancamentos e mortes. Mesmo assim, não arredavam pé.
Depois do 25 de Abril, os meus pais continuaram a fazer greve. Já não lutavam contra uma ditadura, mas por novas conquistas laborais. Em 1982, quando começaram a trabalhar por conta própria e foi convocada a primeira greve geral, surgiu um dilema. Eram gente de luta, habituada a estar na linha da frente das reivindicações. Agora eram patrões e, formalmente, não podiam fazer greve.
A solução encontrada foi simples. Sempre que havia greve geral, a empresa deles aderia. A porta ficava fechada. Se algum funcionário não quisesse fazer greve, recebia a chave e podia trabalhar sozinho. A minha mãe não cozinhava, o meu pai não fazia compras nem atendia ao balcão. Só uma vez alguém aceitou o desafio. Resultado: passou o dia a limpar a casa inteira. A minha mãe entendeu que, se queria trabalhar, então que trabalhasse a sério.
Eu também nunca entrei nas estatísticas das greves gerais. Nunca fui contabilizada como aderente. Mas também nunca trabalhei num dia de greve. E, por isso, amanhã não me liguem, não esperem respostas a emails. Estou de greve.
Estou de greve para que os direitos laborais não sejam tratados como privilégios descartáveis. Estou de greve para que ninguém possa ser despedido ao sabor dos humores patronais. Estou de greve contra a desregulação dos horários, contra a precariedade travestida de modernidade e pela valorização do trabalho.
Não faço parte da estatística, é verdade. Mas sei de que lado estou. E isso, para mim, conta mais do que qualquer gráfico ou relatório.
E para os que não vão fazer greve, deixo a frase que o meu pai repetia aos colegas que ficavam a trabalhar: “Se vocês não lutam por vocês, luto eu. Não podemos todos ser parvos.”
Hoje, muitos dos direitos conquistados à custa de costelas partidas, olhos perdidos e vidas sacrificadas são apresentados como inevitabilidades da evolução económica. Curiosamente, a evolução económica parece avançar sempre na direção de pedir mais a quem trabalha e menos a quem manda. Deve ser coincidência. Tal como é coincidência que os direitos laborais sejam considerados fundamentais até ao momento em que alguém decide exercê-los. Aí passam imediatamente a ser um incómodo para a produtividade. Afinal, há tradições que nunca morrem. Só mudam de discurso.
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