chico buarque - 2023 1ª revisao
Fiz uma revisão dos erros, melhorei a fluidez e reforcei o tom de crónica cultural, mantendo a sua voz crítica e apaixonada.
A voz, a obra, a música e as causas de Chico Buarque encheram o Campo Pequeno. Acompanhado por um excelente grupo de músicos, num alinhamento que percorreu grande parte da sua carreira, Chico foi simplesmente Chico: cantou e encantou.
Falou pouco, como sempre. Cantou muito, como sempre. Os quase 80 anos não lhe pesam na voz, na presença ou na capacidade de prender uma sala inteira. Durante mais de duas horas esteve ali, diante de nós, um dos verdadeiros monstros sagrados da música mundial. Um dos maiores compositores da língua portuguesa, um criador que há muito ultrapassou a dimensão de cantor para se tornar património cultural.
Talvez quem tenha ido à procura dos grandes êxitos das rádios ou dos discos mais vendidos tenha saído menos satisfeito. Mas quem acompanha Chico Buarque ao vivo sabe que os seus alinhamentos raramente obedecem à lógica do mercado. São frequentemente construídos a partir das canções das margens, das "beiradas", dos lados B, aquelas que ele mais estima, as que melhor traduzem as causas que sempre defendeu e a visão do mundo que atravessa toda a sua obra.
Vejo Chico desde a adolescência, sempre que vem a Portugal. Desta vez, quando comprei o bilhete, pensei que estivesse apenas a prestar uma homenagem a alguém que me acompanhou durante grande parte da vida. Imaginei que iria encontrar um artista inevitavelmente marcado pela idade, talvez menos brilhante, talvez menos intenso. Enganei-me. Vi Chico Buarque como sempre o vi: inteiro, lúcido, elegante, dono de um repertório inesgotável e de uma presença que continua a transformar canções em acontecimentos. Vi Chico a ser Chico. E foi tão bom.
A única nota amarga da noite foi, mais uma vez, o som do Campo Pequeno. Aquilo não vale um caracol em termos acústicos. Uma sala de espectáculos com má acústica deixa de ser uma sala de espectáculos; passa a ser apenas um conjunto de paredes e cadeiras. Reformado ou não, o Campo Pequeno continua a ser aquilo que sempre foi: uma praça de touros adaptada para concertos.
Gostava de ter visto este espectáculo no Coliseu, onde tantas vezes vi Chico, ou no Casino Estoril, ou no CCB, espaços onde o cuidado com a acústica faz toda a diferença. Mas os homens que têm dinheiro para trazer artistas desta dimensão raramente pensam primeiro na música. Pensam nos números, na lotação, na receita. Veem cifrões antes de ouvirem acordes. E assim Chico foi parar ao sítio que mais bilhetes vende, ainda que isso significasse sacrificar parte da qualidade da experiência.
Foi uma pena. Porque aquilo que poderia ter sido absolutamente brilhante acabou ligeiramente ofuscado por um som que nunca esteve à altura do artista em palco.
Raios partam os capitalistas da cultura.
Obrigado, Chico Buarque.
Obrigado, Mônica Salmaso, que abriu a noite e protagonizou, de forma magnífica, vários duetos com Chico.
Obrigado à excelente banda que os acompanhou.
E obrigado, mais uma vez, por toda a obra, por todas as canções, por tantas lágrimas, por tantas emoções, por tantos sonhos e por uma vida inteira de beleza, inteligência e resistência.
Comentários
Postar um comentário