a sala do covões - 2020 1ª revisao
O Armazém 8 tem capacidade para cerca de 80 pessoas sentadas. Mas eu só posso abrir para 40.
Concordo. Há que ter cuidado. Há regras, há riscos, há uma pandemia que ninguém pode ignorar. Até aqui, tudo bem.
Mas... já vos disse muitas vezes que é o "mas" que costuma estragar os discursos bonitos.
Por isso, expliquem-me lá uma coisa.
Ontem houve espectáculo no Campo Pequeno. Tudo dentro da legalidade, garantem-nos. E eu acredito que sim. Aliás, a presença do Primeiro-Ministro e da Ministra da Cultura parece funcionar quase como um selo de certificação oficial: se eles lá estavam, certamente estava tudo em conformidade.
O que eu não consigo compreender é a matemática da coisa.
No meu espaço, com capacidade para 80 pessoas, só posso receber 40. No Campo Pequeno, uma sala com milhares de lugares, houve espectáculo, aplausos, emoção e fotografias para a posteridade. Tudo legal, repito. Mas a legalidade, por vezes, tem uma estranha forma de se distribuir pelo território nacional.
Pelos vistos, o vírus faz contas diferentes consoante a morada. Num pequeno espaço cultural, é um contabilista rigoroso. Num grande recinto, torna-se mais flexível, mais compreensivo, talvez até mais sensível às necessidades da indústria do espectáculo.
Ou então sou eu que não percebo nada de epidemiologia.
É possível.
Também é possível que existam explicações técnicas, pareceres científicos e regulamentos detalhados para justificar a diferença. O problema é que, para quem está do lado de cá do balcão, sobra sempre a sensação de que há cidadãos de primeira e cidadãos de segunda, salas de primeira e salas de segunda, negócios que contam e negócios que apenas existem.
E é aqui que nasce o descrédito. Não porque as regras existam, mas porque parecem mudar de tamanho conforme a dimensão dos interesses envolvidos.
No fim de contas, talvez a grande lição seja esta: a cultura é muito importante. Sobretudo quando acontece na sala certa, com as pessoas certas e com as fotografias certas.
Nós, os pequenos, continuamos a fazer contas às cadeiras vazias.
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