D. Fina - 3º texto revisto

 Há umas semanas fui “contratada” pela minha filha para ir de babá para o Algarve. Ela tinha um congresso, o companheiro uma agenda impossível, e eu aceitei o cargo com a solenidade feliz das avós: fiz a mala, levei o chapéu de sol, os cremes, a paciência e fui de netos a tiracolo, como quem leva pedaços do próprio coração pela mão.

Instalámo-nos no apartamento emprestado à pressa dos dias modernos. Arrumaram-se roupas, espalharam-se brinquedos, encontraram-se os cantos da casa e, logo na manhã seguinte, começámos o ritual antigo e luminoso do verão: piscina, almoço, sesta e, ao fim da tarde, praia.

As crianças têm uma maneira muito própria de ocupar o tempo. Não o medem — habitam-no. Um balde de areia pode durar uma eternidade. Uma onda pequena é sempre a primeira onda do mundo. E eu, cansada e feliz, ia atrás deles como quem reaprende a viver devagar.

Ao cair da noite, os pais chegavam. Brincavam um pouco com os filhos, davam-lhes banho, deitavam-nos ainda com cheiro a mar e protetor solar, beijavam-lhes a testa morna do sono e partiam depois para o hotel onde estavam instalados, uns quilómetros mais à frente.

Era então que o silêncio vinha sentar-se comigo.

Ficava na varanda, de frente para o mar escuro, ouvindo o rumor compassado das ondas, esse respirar antigo da terra que parece existir antes dos homens e continuará depois deles. E foi numa dessas noites, entre o cansaço bom do corpo e a serenidade do mar, que me apareceu inteira na memória a D. Fina.

A Fina era amiga da minha mãe desde rapariga. Tinham entrado juntas no Fomento no mesmo dia — duas mulheres que sabiam ler e escrever numa época em que isso ainda parecia um luxo improvável para gente pobre. Por saberem juntar letras, foram colocadas na embalagem: mediam papéis, contavam folhas, entregavam-nas às mulheres que enrolavam rebuçados à mão, num trabalho tão repetido que devia acabar por entrar no sangue.

Um ano depois de começarem, foram chamadas à casa da mãe de Alves Martins, o patrão. No caminho entre a fábrica e a casa senhorial, junto à Rua do Raimundo, iam caladas de medo, tentando adivinhar que culpa carregavam sem saber. As pobres vivem assim: habituadas a que qualquer chamada possa trazer desgraça.

Mas esperavam-nas chá e bolos.
Mandaram-nas sentar.
E a velha senhora decidiu-lhes o destino.

A minha mãe iria para a tipografia, cuidar das publicações da fábrica. A Fina seguiria para casa do filho da patroa, como governanta. Duas mulheres humildes, conduzidas pela mão invisível dos ricos para vidas que deixavam de lhes pertencer inteiramente.

A minha mãe ficou até a fábrica fechar.
A Fina ficou quase uma vida inteira.

E que vida foi a dela.

A D. Fina tornou-se a engrenagem silenciosa daquela casa enorme. Era ela quem sabia onde estavam as chaves, quem organizava os horários, quem criava os meninos, quem mandava nos criados, quem resolvia os pequenos desastres domésticos antes sequer de serem notados pelos patrões. Tornou-se indispensável — que é talvez a forma mais perigosa de servidão.

Depois vieram os verões em Monte Gordo. E foi talvez o cheiro do Algarve que ma trouxe de novo naquela varanda.

A D. Fina passava os verões a cuidar dos filhos e netos dos outros. De manhã dava-lhes o pequeno-almoço, vestia-os ainda sonolentos, carregava toalhas, baldes e brinquedos e descia com eles para os chapéus de sol alugados na praia. Cabia-lhe entrar na água, vigiar afogamentos imaginários, limpar lágrimas, sacudir areia dos pés pequenos, inventar paciência para dias infinitos.

Mais tarde apareciam os pais e os avós. Instalavam-se nas espreguiçadeiras como quem ocupa naturalmente o lugar do descanso. E a Fina recebia então outra missão invisível: impedir que a alegria barulhenta das crianças perturbasse o repouso dos adultos.

Ao almoço regressava a casa com os pequenos, obrigava-os à sesta, voltava depois à praia, dava banhos, servia jantares, deitava crianças. Os pais apareciam apenas para os beijos da noite antes de seguirem para o Casino de Monte Gordo, vestidos de verão e liberdade.

Estas eram as férias da D. Fina.

E as mulheres da fábrica invejavam-na. Invejavam-lhe os três meses de Algarve, o sol, o mar, o privilégio aparente de acompanhar os patrões. A pobreza tem destas ironias cruéis: olhar para o cansaço dos outros e imaginá-lo descanso.

Às vezes dizia à minha mãe, com humor cansado:
— Saiu-te a sorte grande… tens só trinta dias de férias. Eu tenho noventa de sol e areia.

Mas eu sei — porque a minha mãe me contou — que a Fina nunca teve verdadeiramente férias. Nunca levou a filha consigo. Quase não a criou. Via-a pouco, entre horários e obrigações, e o amor entre ambas acabou marcado por essa distância silenciosa que o trabalho dos pobres tantas vezes impõe.

Ali, naquela varanda voltada ao mar, depois de um dia inteiro de areia, mergulhos e gargalhadas dos meus netos, pensei muito nela. Pensei na fadiga invisível das mulheres como a D. Fina. Mulheres que deram a vida a criar os filhos dos outros enquanto os próprios cresciam longe do seu colo.

Mas pensei também na diferença entre nós.

Eu estava cansada, sim — mas profundamente feliz.
Feliz porque os meus netos estavam comigo por amor e não por obrigação. Feliz porque a minha filha nos queria ali. Porque ainda acredita que a família deve ocupar espaço na infância dos filhos.

Os colegas ricos dela tinham levado babás. Mulheres discretas, profissionais do cuidado, quase invisíveis. Os meus netos tinham-nos a nós. Tinham colo verdadeiro, excesso de mimo, avós cansados e felizes, gargalhadas sem horário, histórias repetidas, mãos familiares a limpar-lhes a areia dos pés.

E naquela noite percebi uma coisa simples e funda:
há trabalhos que cansam o corpo
e há afetos que o salvam.

Por isso senti tristeza pelas Finas deste mundo.
E talvez também pelas avós dos meninos ricos,
que nunca saberão o que perderam.

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