Rock Rendez Vous: onde os sonhos começaram- 2023 1º revisao
Há lugares que deixam de ser apenas paredes e um palco. Transformam-se em memória, identidade e destino. O Rock Rendez Vous foi um desses lugares na minha vida.
Na adolescência, rumávamos com frequência a Lisboa para assistir aos espetáculos que nunca chegavam à nossa terra. O Rock Rendez Vous era um templo. Vi ali grandes bandas e artistas a dar os primeiros passos, como Rui Veloso, mas também muitos outros que dificilmente encontravam espaço nos grandes certames do país.
Naquela sala descobri mundos inteiros. Ouvi metal, punk, rock sinfónico e tantos outros sons que me abriram horizontes. Para uma miúda que queria descobrir o mundo, cada concerto era uma viagem. Dancei naquela pista como se o tempo não existisse. Vivi alegrias inesquecíveis, desilusões próprias da idade e até um episódio que nunca esquecerei: um ataque de epilepsia provocado pelas luzes negras, muito antes de saber que não podia ser exposta àquele tipo de iluminação.
Com o passar dos anos, o Rock Rendez Vous começou a perder parte da magia para mim. Tornou-se mais confuso, mais ruidoso, menos atento à música. Foi então que encontrei outro refúgio: o Ritz Clube. Parecia uma sala irmã, mas tinha uma diferença que me conquistou desde o primeiro instante. Quando começavam os concertos, o bar parava. As conversas calavam-se. O espetáculo era respeitado. Ia-se para ouvir, sentir, emocionar-se. E emocionei-me muitas vezes. Ali vi concertos memoráveis, conheci artistas extraordinários e aprendi que a cultura merece silêncio, atenção e entrega.
Hoje percebo que aquelas duas salas me ensinaram muito mais do que música. Ensinaram-me uma forma de estar, uma maneira de viver a arte e de respeitar quem sobe a um palco. Ensinaram-me que um espaço cultural pode ser muito mais do que um edifício: pode ser um lugar onde se formam pessoas, onde se alimentam sonhos e onde se descobrem vocações.
O mais curioso é que só muitos anos depois compreendi que um sonho tinha começado ali, sem que eu o soubesse. Um sonho silencioso, quase inconsciente. Quando nasceu o Armazém 8, em Évora, pensei que estava apenas a criar um espaço cultural à nossa escala, à nossa maneira, com os valores em que acreditávamos. Só alguns meses depois da inauguração tive uma espécie de revelação: afinal, aquele lugar tinha sido sonhado muito antes. Tinha começado a nascer, sem que eu desse conta, entre as noites do Rock Rendez Vous e do Ritz Clube.
Nenhum dos dois foi copiado. Nem podia ser. O Armazém 8 encontrou a sua própria identidade. Mas herdou deles aquilo que realmente importa: a vontade de misturar artes, de dar palco a quem merece ser ouvido, de criar comunidade e de fazer da cultura um encontro entre pessoas.
É curioso como a vida funciona. Aquilo que amamos nunca desaparece verdadeiramente. Transforma-se. Deixa marcas invisíveis que, anos mais tarde, florescem em lugares, projetos e escolhas que julgávamos ter inventado do nada.
O Rock Rendez Vous foi uma sala mítica para milhares de pessoas. Para mim, foi ainda mais do que isso. Foi o lugar onde, sem o saber, começou um sonho que só muitos anos depois ganhou paredes, palco, luzes e nome.
E por isso, tantos anos passados, só posso dizer: obrigado.
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