Os bancos caem, os contribuintes pagam-2014 1º revisao
Primeiro foi o BPN. Ainda mal tínhamos recuperado do choque e já estávamos a salvar o BES. Pelo caminho, ouviam-se rumores sobre quem seria o próximo da fila. Na altura, muitos olhavam para o BPI e perguntavam-se se também acabaria por precisar de uma boia de salvação. O problema deixava de parecer excecional para se tornar quase uma rotina.
A cada nova crise bancária repetia-se o mesmo argumento: era preciso salvar o sistema financeiro para evitar consequências ainda piores. E, uma vez mais, quem acabava chamado a pagar a fatura eram os contribuintes. Aqueles que trabalham, pagam impostos, suportam juros, cumprem as suas obrigações e, tantas vezes, são aconselhados a viver "dentro das suas possibilidades".
A ironia nunca deixou de ser amarga. Durante anos, os cidadãos ouviram discursos sobre rigor, contenção e sacrifícios. Mas quando eram os bancos a falhar, as regras pareciam mudar. O dinheiro aparecia, as soluções encontravam-se e as perdas eram, direta ou indiretamente, socializadas.
Daí nascer a pergunta, feita com humor, mas carregada de desencanto: e se criássemos um banco apenas para os que trabalham, pagam os seus impostos e vivem "acima das suas possibilidades", como tantas vezes lhes disseram? Se um dia esse banco entrasse em dificuldades, será que o Governo e a Europa correriam a salvá-lo com a mesma rapidez e determinação?
A resposta é conhecida de todos, e talvez seja precisamente isso que continua a alimentar a desconfiança dos cidadãos. Porque uma economia saudável precisa de bancos sólidos, mas também de responsabilidade, transparência e justiça. Quando os lucros são privados e os prejuízos acabam por ser públicos, instala-se um sentimento de desigualdade difícil de apagar.
As crises bancárias deixaram uma marca profunda em Portugal. Não apenas pelos milhares de milhões que custaram, mas pela sensação de que existem dois pesos e duas medidas: uma para quem falha de fato e gravata, outra para quem trabalha todos os dias para pagar a conta.
Talvez seja essa a maior lição daqueles anos. Um sistema financeiro só merece confiança quando quem assume os riscos também assume as consequências. Caso contrário, a pergunta continuará a ecoar, sempre que surgir mais uma crise: afinal, quem é que salva quem?
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