O espetáculo é de borla... até chegar a fatura-2026 1º revisao

 Começo por dizer que acho muito bem que a Câmara tenha trazido o espetáculo "A Casa de Amália" a Évora. O programa promove as nossas tradições, as pessoas gostam, enche a cidade e dá-lhe visibilidade quando passa na televisão.

Até aqui, tudo bem.

Agora vamos à parte menos romântica da história.

As pessoas assistiram gratuitamente, como acontece normalmente quando o município considera que determinado evento é importante. Mas uma coisa é o público não pagar; outra, muito diferente, é dizer que o espetáculo foi de borla. Porque não foi.

Todos os programas de televisão gravados nos municípios têm custos. Todos. E este, devido ao sucesso e à dimensão da produção, tem custos ainda maiores.

Os contratos celebrados entre as televisões e os municípios, regra geral, não são públicos. Há décadas que assim acontece. Cada um tirará as suas conclusões. Na minha opinião, sendo a RTP uma empresa pública, é difícil compreender os valores que cobra aos municípios para produzir programas que depois lhe garantem audiências e receitas publicitárias. Mas adiante.

Depois há toda a componente técnica. Um espetáculo desta dimensão exige som, luz, palco, equipamentos e uma equipa especializada. Normalmente, a produção técnica é assegurada por empresas que acompanham o programa e não por empresas locais. Ou seja, uma parte significativa desse dinheiro nem sequer fica na economia da cidade que recebe o espetáculo.

Também a produção envolve dezenas de pessoas que se deslocam de Lisboa durante vários dias. Técnicos, produtores, assistentes, realização... facilmente ultrapassam as cinquenta pessoas. E todos precisam de alojamento, refeições e logística, despesas que, acabam igualmente suportadas pelo município.

Depois há as cadeiras. Como o público esperado é numeroso, raramente existe material suficiente nos municípios. Resultado: alugam-se centenas ou milhares de cadeiras a empresas de fora, aumentando ainda mais a fatura.

E há ainda situações — não sei se aconteceu neste caso — em que os artistas nacionais são pagos pela RTP, enquanto os artistas locais participam gratuitamente.

Espero, por isso, ter explicado como estas produções funcionam. E espero que venham muitas mais a Évora. Quanto mais atividade cultural houver, melhor.

Mas, da próxima vez que alguém disser que "isto foi tudo de borla", convém lembrar que foi de borla apenas para quem estava sentado na plateia. A conta chega sempre. E chega ao município, ou seja, chega aos contribuintes.

Curiosamente, são muitas vezes as mesmas pessoas que defendem que "a cultura não deve ser apoiada" ou que "os artistas que vão trabalhar". Convém olhar para o outro lado da moeda.

Nos países onde o apoio público à cultura é mais reduzido ou inexistente, como os Estados Unidos, os bilhetes para espetáculos de  artistas medios  podem facilmente custar mais de trezentos  euros, chegando aos seiscentos sobretudo para lugares com boa visibilidade ou comprados em revenda. No Reino Unido acontece frequentemente o mesmo com concertos muito procurados.

Em Portugal, o Estado continua a apoiar a cultura, embora em percentagens relativamente modestas — cerca de 0,4% da despesa pública, muito abaixo de países como a França, que investe 1,5%,  significativamente mais.

Por isso, antes de repetir que "não se deve gastar dinheiro com cultura", talvez valha a pena pensar nas consequências.

É que, no dia em que esse apoio desaparecer, talvez continuem a existir programas destes. A diferença é que já não bastará chegar cedo para conseguir um bom lugar.

Será preciso levar a carteira. E, para muitos, nem isso chegará.

Quanto ao programa, se conseguir, vou vê-lo pela televisão. Ficam os meus parabéns a todos os intervenientes pelo trabalho realizado e à Câmara Municipal por continuar a apostar na cultura. Que continue a apoiar este tipo de iniciativas, mas sem esquecer a cultura local, que é aquela que está cá durante todo o ano a trabalhar, a criar e a dinamizar o território. E, ao contrário de muitas grandes produções, é também aquela em que o dinheiro investido fica integralmente na economia local, gerando riqueza, emprego e oportunidades para quem cá vive.



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