Não me peçam para pagar a fé dos outros- 2023 1º revisao
Vamos analisar isto sem romantismos.
Os jovens querem viajar, divertir-se, estar com os amigos, cantar, beber uns copos, enrolar uns cigarros, apaixonar-se, dar os primeiros beijos e descobrir o mundo. É isso que os jovens fazem desde que há jovens. Nada de novo.
Para viverem tudo isso têm várias opções: festivais de música, encontros partidários, intercâmbios, viagens de finalistas ou encontros religiosos.
Depois entram os pais. Há os que deixam os filhos ir a festivais e os que não deixam. Há os que os incentivam a participar em atividades partidárias e os que preferem mantê-los afastados da política. E há os que fazem questão de os levar à Igreja e de os enviar para encontros religiosos. Também aqui não há novidade. São os pais a educarem os filhos de acordo com as suas convicções.
O problema começa quando uma dessas opções deixa de ser uma escolha privada e passa a ser uma conta pública.
A Igreja Católica sabe perfeitamente como conquistar os jovens. Ao fim de dois mil anos de existência, domina a arte de comunicar, de criar símbolos e de organizar grandes eventos. As Jornadas Mundiais da Juventude são, antes de mais, uma extraordinária operação de mobilização. Quem é que, aos dezasseis ou dezoito anos, recusaria duas semanas noutro país, rodeado de amigos, com viagens organizadas, alojamento, atividades, concertos e milhares de jovens da mesma idade? Se pelo meio houver missas, catequeses ou um encontro com o "cabeça de cartaz", muitos aceitam isso como parte do programa.
É assim que funciona. Sempre funcionou.
Haverá quem participe movido pela fé. Claro que sim. Mas também haverá muitos que vão pela experiência, pela viagem, pelo convívio e pela aventura. Não os condeno. Se tivesse a idade deles, provavelmente também iria, independentemente das minhas crenças.
A minha indignação nunca foi dirigida aos jovens.
É dirigida a quem decidiu que todos nós devíamos pagar esta festa.
Enquanto milhares de famílias fazem contas para levar os filhos de férias, enquanto muitos jovens não conseguem pagar uma semana de campismo ou um bilhete para um festival de música, o Estado português decidiu financiar um encontro religioso de uma confissão específica.
É aqui que termina a minha compreensão.
Se outros países conseguiram organizar este evento com uma participação financeira muito mais limitada do Estado, porque é que Portugal decidiu assumir uma fatura desta dimensão? Porque é que um país que diz não ter dinheiro para hospitais, escolas, habitação ou cultura encontra milhões para um evento religioso?
Essa escolha é política. E, como todas as escolhas políticas, deve ser escrutinada.
Durante dias, o país parou. Mobilizaram-se forças de segurança, reorganizaram-se serviços públicos, desviaram-se recursos do Serviço Nacional de Saúde e transformou-se Lisboa numa montra para o mundo. Tudo para que a imagem fosse perfeita.
A mim interessa-me mais o país real do que o país da fotografia.
Também não me convence a narrativa de que este é apenas um encontro pela paz, pelo amor e pelos pobres. Esses valores são universais e não pertencem a nenhuma religião. Não é preciso ser católico para defender a paz, ajudar quem precisa ou respeitar o próximo. Conheço crentes extraordinários, mas também conheço quem use a religião como máscara para esconder intolerância, preconceito e hipocrisia. Como conheço ateus profundamente solidários e humanos.
Quanto ao Papa, respeito a figura institucional e reconheço os gestos de proximidade que tem procurado cultivar. Mas isso não altera a minha visão sobre a instituição que representa. A Igreja Católica teve mais de dois mil anos para aperfeiçoar a forma como comunica, como constrói a sua imagem e como preserva a sua influência. Isso não significa que eu tenha de acreditar nela.
Não acredito.
E digo-o porque conheci essa realidade por dentro e porque as minhas convicções nasceram da experiência, não do preconceito.
Cada um tem o direito de acreditar no Deus que quiser — ou de não acreditar em nenhum. O que ninguém deveria ter é o direito de obrigar todos os contribuintes a financiar a divulgação de uma fé que não é a sua.
A liberdade religiosa também implica isto: que o Estado não escolha uma religião para privilegiar com o dinheiro de todos.
Quanto a mim, continuo a acreditar noutra coisa.
Acredito nas pessoas que fazem o bem sem esperar recompensa divina.
Acredito na liberdade de consciência.
E acredito na natureza, que continua a dar-nos todas as provas de que é muito mais poderosa do que qualquer templo construído pelos homens.
https://www.youtube.com/watch?v=S5TyMu5kGRQ
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