Quando Évora Era o Mundo- 2021 1º revisao
Há quem ache que estou a exagerar quando digo que, na década de 80, Évora era uma cidade cosmopolita. Mas garanto-vos que não estou.
Todos os dias chegava gente dos quatro cantos do mundo. Vinham para criar, investigar, apresentar espetáculos, desenvolver projetos, experimentar novas linguagens artísticas e culturais. Havia sempre qualquer coisa a acontecer, muitas vezes nos lugares mais improváveis, organizada por instituições, associações ou simples grupos de amigos que acreditavam que a cultura podia transformar uma cidade.
Évora fervilhava de ideias.
Tínhamos, no entanto, um problema que hoje quase parece impossível de imaginar: não havia hotéis suficientes. Existiam meia dúzia de pensões, algumas de reputação duvidosa, e apenas dois hotéis, caros para a maioria dos visitantes. Por isso, os artistas, investigadores e criadores acabavam muitas vezes hospedados nas casas de quem já vivia sozinho.
Foi assim que a minha casa se transformou, durante algum tempo, numa espécie de porto de abrigo.
Naquela época vivia numa casa que o meu pai tinha nos Canaviais, então isolada, rodeada de campo e de silêncio. Hoje está integrada no bairro, mas, naquela altura, parecia perdida no meio da paisagem alentejana. Talvez por isso fosse um lugar tão apetecível para quem precisava de descansar depois de dias intensos de ensaios, espetáculos ou encontros culturais.
Por ali passaram dezenas de artistas. De muitas nacionalidades, de muitas cores, de muitas línguas e de muitos credos. Com alguns nasceram amizades profundas; com outros ficaram apenas as cumplicidades de um momento, dessas que a vida oferece e o tempo leva. Com todos aprendi alguma coisa.
Quem me conhece sabe que tenho um defeito antigo: sou péssima a guardar nomes. E, nos anos 80, ainda não existiam redes sociais nem motores de busca capazes de reencontrar pessoas em poucos segundos. Quando cada um seguia o seu caminho, quase sempre perdíamos o contacto. Ficavam as histórias, as recordações e a esperança de que a vida, um dia, nos voltasse a cruzar.
E, às vezes, cruza.
Há alguns anos comprei um CD de um projeto brasileiro formado por três mulheres. Gostei muito do álbum, das vozes, dos arranjos e partilhei várias músicas nas redes sociais.
Dias depois, recebi um pedido de amizade de uma das cantoras. Pensei apenas que tinha gostado do que escrevi sobre o disco. Aceitei o pedido e não lhe dei mais importância.
Pouco tempo depois chegou uma mensagem.
Perguntava-me como eu estava.
Estranhei. Uma coisa era aceitar um seguidor. Outra, muito diferente, era preocupar-se comigo. Respondi educadamente, mas com a habitual reserva alentejana.
Dias depois voltou a escrever. Perguntou novamente por mim e, desta vez, quis saber da minha filha: se estava bem, que idade tinha...
Foi nesse instante que os neurónios começaram finalmente a funcionar.
Como podia aquela mulher saber que eu tinha uma filha?
Fui à página dela. Percorri fotografias, entrevistas e publicações antigas. Até que encontrei uma imagem de há muitos anos.
Foi como abrir uma janela para os anos 80.
Reconheci-lhe imediatamente o rosto jovem e, com ele, regressaram as memórias. Lembrei-me de quem era, do tempo que passou em Évora, das conversas, das gargalhadas e das histórias que vivemos.
Escrevi-lhe de imediato. Pedi desculpa por não a ter reconhecido. Expliquei-lhe que a memória me tinha traído, mas que bastou aquela fotografia para tudo voltar ao lugar.
Retomámos uma amizade que apenas estava adormecida.
Hoje vamos comentando as publicações uma da outra, trocando mensagens de vez em quando, como quem sabe que há laços que resistem ao tempo, mesmo quando passam décadas sem uma palavra.
Hoje ela partilhou uma canção que eu já não ouvia há muito tempo e de que continuo a gostar profundamente.
Sorri.
Porque percebi que a música, tal como a amizade, tem esta capacidade extraordinária de vencer o tempo.
E porque me lembrei, mais uma vez, daquela Évora onde o mundo inteiro parecia caber dentro das suas muralhas. Uma cidade onde a cultura não era um acontecimento excecional, mas uma forma de viver. Onde portas se abriam, casas acolhiam e amizades nasciam sem perguntar de onde vinha cada um.
Talvez seja por isso que continuo a acreditar que a maior riqueza de uma cidade nunca foram os edifícios nem os monumentos. Foram sempre as pessoas que por ela passaram e as histórias que deixaram em quem teve a felicidade de as conhecer.
Boa interpretação, companheira. Ficou bonita. E, pelas imagens, a festa também parece ter sido memorável.
https://www.youtube.com/watch?v=_nhrGCBoeFc
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