O Segredo que Nunca Deveria Ter Existido- 2022 1º revisao

 


Hesitei muitos anos antes de escrever este texto.

Sempre que o tema dos abusos na Igreja Católica regressava à atualidade, pensava nesta história. Dizia para mim mesma que um dia a contaria. Depois desistia. Talvez porque, quando compreendi verdadeiramente o que tinha acontecido, já tinham passado demasiados anos. Talvez porque nunca consegui deixar de sentir culpa por não ter conseguido proteger uma amiga. Talvez porque eu tinha apenas seis anos e a minha inocência me impedisse de perceber aquilo que os adultos à minha volta sabiam demasiado bem.

Ou talvez porque nunca soube o que foi feito dela.

Mas as recentes declarações do Presidente da República, relativizando a responsabilidade da Igreja perante os abusos cometidos ao longo de décadas, deram-me finalmente a coragem que me faltava.

E começo precisamente por lhe responder.

Não, Senhor Presidente. A Igreja soube. Durante demasiado tempo soube. Houve quem escondesse, quem silenciasse, quem transferisse agressores e quem sacrificasse vítimas para proteger a instituição. Isso está hoje amplamente documentado e foi reconhecido pela própria investigação independente. Dizer menos do que isto é acrescentar dor a quem já sofreu demasiado.

Vivemos num Estado laico. Por isso, quando um Presidente da República fala sobre um tema desta dimensão, as suas palavras têm peso. E, quando não servem para confortar as vítimas ou exigir responsabilidade, talvez o silêncio tivesse sido a posição mais digna.

Andei num colégio de freiras.

Havia dois mundos dentro do mesmo edifício. De um lado, as meninas cujos pais pagavam para ali estudarem. Do outro, as órfãs e as raparigas pobres que estavam entregues aos cuidados da instituição.

As primeiras aprendiam bordados, rezavam e estudavam.

As segundas faziam isso... e limpavam o colégio. Limpavam também igrejas da cidade, entre elas São Francisco, Santo Antão, a Sé e até a residência do arcebispo. Saíam em grupos, distribuídas conforme o comportamento.

Ou, pelo menos, era isso que nos diziam.

Havia uma rapariga — nunca direi o seu nome porque não sei onde a vida a levou — que, por pior que se portasse, era sempre enviada para o mesmo lugar. As outras revoltavam-se. Não percebiam porquê.

Um dia, a discussão tornou-se tão violenta que acabou em puxões de cabelo e lágrimas.

Foi então que ela gritou:

— Quem me dera não ir... Tenho de me deitar com o padre... Dói.

Mal acabou a frase, tapou imediatamente a boca com as mãos, como quem percebe que acabara de cometer um pecado imperdoável.

Fez-se um silêncio absoluto.

As outras correram para junto dela, abraçaram-na e formaram um círculo à sua volta, como se tentassem protegê-la do mundo inteiro.

Eu tinha seis anos.

Não percebi rigorosamente nada.

Perguntava-me como podia doer deitar-se. Eu também me deitava ao lado do meu pai para ouvir histórias antes de adormecer e nunca me doía coisa nenhuma.

Perguntei-lhes o que significava aquilo.

Responderam apenas:

— Esquece. Isto não é para quem tem pais.

Fiquei ainda mais confusa.

Antes de sairmos do recreio fizeram-me prometer, numa solene "jura de dedinho", que nunca contaria aquilo a ninguém.

Jurei.

Nesse dia, quando o meu pai me foi buscar e caminhávamos pelo jardim para comprar o gelado de sempre, fiz-lhe apenas uma pergunta:

— Pai, porque é que dormir com um padre dói?

Nunca esquecerei o rosto dele.

Sentou-se comigo num banco e perguntou-me quem tinha dito aquilo.

Contei-lhe exatamente o que tinha ouvido.

Na minha cabeça, não estava a quebrar a promessa. Eu não estava a contar a ninguém. Estava a falar com o meu pai. E um pai nunca é "ninguém".

Depois de me deixar ao cuidado do vendedor de gelados, um amigo dele, voltou imediatamente ao colégio.

Demorou-se tanto que eu fiquei zangada. Achava apenas que me estava a roubar tempo para brincar.

No dia seguinte fui chamada pela madre superiora.

Fiquei de castigo.

Durante dias, mal entrava no colégio, era levada para a igreja. Obrigavam-me a permanecer deitada no chão, a rezar, para aprender a não contar mentiras ao meu pai.

Eu não percebia.

Não lhe tinha contado mentiras.

Na verdade, as únicas mentiras que dizia eram na confissão. Inventava pecados porque o padre insistia que todas as crianças tinham pecados para confessar.

Mas desta vez não.

Não tinha mentido.

Cumpri o castigo em silêncio. Disseram-me que, se contasse aos meus pais, seria ainda pior.

Quando finalmente voltei ao recreio, as minhas amigas recusaram-se a brincar comigo.

Disseram que eu traíra a promessa.

Que por minha culpa a nossa amiga tinha sido mandada embora.

Nunca mais a vimos.

Durante muito tempo culpei o meu pai.

Só muitos anos depois compreendi.

Ele fez exatamente aquilo que qualquer adulto responsável deveria fazer.

Quem falhou não foi ele.

Quem falhou foi quem castigou crianças para proteger adultos.

Quem falhou foi quem fez desaparecer uma vítima em vez de afastar um agressor.

Quem falhou foi quem confundiu o nome de Deus com a defesa da instituição.

Essa história mudou-me para sempre.

Foi uma das muitas razões que me afastaram da Igreja. Não da fé, mas da instituição que me ensinava o Evangelho enquanto escondia aquilo que hoje sabemos que aconteceu demasiadas vezes.

Talvez a minha amiga ainda esteja viva.

Talvez nunca tenha conseguido falar.

Talvez continue a carregar uma dor que começou naquele colégio.

Nunca saberei.

Mas sei que ela existiu.

E sei que esta história aconteceu.

Por isso, Senhor Presidente, não. Não há espaço para relativizações.

Há crimes que não admitem meias palavras.

Não há equilíbrio possível entre proteger a imagem de uma instituição e fazer justiça às vítimas.

Os abusos sexuais de crianças são um desses crimes.

E cada palavra que diminui essa responsabilidade abre novamente uma ferida em quem passou décadas à espera de ser ouvido.

As vítimas não precisam que lhes peçam silêncio outra vez.

Precisam que, finalmente, alguém lhes diga que acredita nelas.

https://www.youtube.com/watch?v=Nh6rYXcV3HE

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