O Segredo que Nunca Deveria Ter Existido- 2022
Hesitei muito em vos contar esta história. De cada vez que o tema vinha à tona, pensei em a contar, mas hesitava e não contava. Talvez porque quando descobri o que a historia era efetivamente já tinham passado muitos anos, talvez porque me ficou o amargo de boca por não ter ajudado uma amiga, talvez porque a minha ignorância na época (tinha só 6 anos) me tenha feito perder a amiga por não ter guardado segredo direito e nem sequer me ter podido despedir dela. talvez por não saber o que fez essa historia na sua vida. O facto é que penso na história, censuro-me e não a escrevo. Mas Marcelo e o seu passar a mão por cima dos crimes da igreja católica deram-me a coragem que não tinha tido até agora.
E começo por lhe responder, não Senhor Presidente a igreja soube sempre dos abusos infringidos aqueles que tinha á sua guarda, foi conivente e ajudou a perpetuá-los! Especialmente se eram pobres ou tinham défices cognitivos. Com este passar a mão pela cabeça da igreja desculpando-a é também você estar a infringir dores a quem já sofreu muito. Como estamos num estado laico, se não tinha nada de bom a dizer deveria ter estado calado!
No colégio de freiras onde andei, estávamos divididas entre as meninas, que como eu os pais pagavam para estudar para futuras freirinhas e as órfãs ou pobres que a igreja tinha a seu cargo. No meu grupo elas eram demasiado certinhas, cumpriam rigorosamente todas as regras, rezavas todas as orações e faziam muitos lavores, uma chatice que me fez sempre afastar delas. No outro grupo estavam as que corriam e se escalavravam, as que ficavam de castigo por infringir as normas, as que esfregavam os salões e os encerravam fazendo patinagem artística com panos nos pés, uma animação que dava direito a castigos e puxões de orelhas, mas uma vida muito mais animada, era ali que eu tinha as minhas amigas. Era com elas que passava o tempo, mesmo com a madre a brigar comigo. Se a nós competia rezar, aprender os lavores a elas competia arrumar o colégio, fazer a limpeza deste e de várias outras igrejas, S. Francisco, Santo antão, Sé e a casa do arcebispo eram lugares que tinham que ter em ordem. Para estes serviços saiam em grupo e dependendo do seu comportamento (ser melhor ou pior) eram escolhidas para esta ou aquela igreja. Havia, no entanto, uma exceção, uma das minhas amigas (não vou dizer o nome pois não sei onde anda) por pior que se comporta-se ia sempre para o mesmo lugar e o que ela se empenhava em portar mal. Aquilo criava zaragata entre as outras, desatinavam, não percebiam porque ia ela sempre para o melhor se se portava mal. Um belo dia a briga foi tão feia que deu lugar a puxões de cabelo e tudo, em prantos, irritada às tantas ela gritou “quem me dera não ir que deitar com o padre Doi”. Mal o gritou, colocou as mãos sobre a boca em pânico como se tivesse cometido um grande pecado. O silencio foi imediato. Todas pararam, pareciam estatuas, só se escutavam os soluços dela. Eu fiquei sem perceber nada. Como dói deitar? Eu também me deitava com o meu pai, ele contava-me histórias e não doía nada. Esquece foi o que me disseram, isto não é para quem tem “pais”. Pior. Ainda percebi menos, mas por mais que perguntasse elas não me explicavam. Mantinham-se agarradas a minha amiga, em círculo como se a fossem proteger. Não entendi nadinha. Antes de sairmos do pátio do tanque, lugar onde sempre decorriam as brigas por ficar fora do alcance das vistas das freiras, fizeram-me prometer que não contava o que tinha ouvido a ninguem “jura de dedinho” Jurei, não diria a ninguem. No final do dia quando o meu pai me foi buscar e enquanto íamos jardim fora para comprar o gelado da praxe, perguntei-lhe porque é que dormir com o padre fazia doer. O bom do homem deve ter gelado, já estávamos a sair do jardim, pegou-me na mão e sentou-me num banco, quis saber que historia era aquela. Contei-lhe. Não estava a falhar à minha jura, não iria contar a ninguem, mas o meu pai não era ninguem era o meu pai e contava-lhe tudo. Ainda esteve comigo sentado no banco do jardim algum tempo depois de ter relatado os acontecimentos e depois de me deixar sobre a supervisão do vendedor de gelados, um amigo dele, voltou ao colégio. Esteve lá um tempo infinito. Quando voltou eu estava muito zangada, ele tinha-se demorado e eu não ia ter tempo para brincar com as minhas amigas do Pátio. Fui emburrada até casa. No dia seguinte, logo que entrei no colégio fui chamada à madre superiora, estava de castigo, durante o tempo que ela achasse iria passar os dias na igreja, deitada no chão a rezar para deixar de contar mentiras ao meu pai. Estava sem entender nada. eu não tinha dito nada ao meu pai. Menos ainda mentiras. Eu só mentia ao padre na confissão, mas era porque não tinha pecados e ele queria pecados, mas na confissão da tarde dizia sempre que tinha mentido de manhã e fazia as contrições todas. Aquilo não fazia sentido. Mas não tinha como me escusar ao castigo e por lá fiquei, uns dias atras dos outros, sem brincar, sem ver ninguem. De manhã entrava e era logo levada para a igreja, deitava-me no chão e só me levantava quando me traziam o almoço, mas mesmo assim comia ali sentada no banco com o prato nas pernas. No fim do dia saia directa para a porta da rua. Não disse nada aos meus pais, tinham-me dito que se dissesse o castigo era pior e ele já era tão mau, que fiquei calada. Os dias passaram e quando fui liberada do castigo e fui ter com as minhas amigas, elas não quiseram brincar comigo, eu tinha faltado ao juramento, tinha dito que o padre fazia doer a minha amiga, por isso a tinham mandado embora para longe e todas elas tinham sido castigadas. Eu não tinha dito a ninguem só falei com o meu pai, nem sabia o que falavam. Bem argumentei, mas elas estavam zangadas. Eu também. Como tinham elas sabido que eu tinha dito ao meu pai, será que Deus tinha-lhes contado? Afinal só ele sabia tudo. À tarde perguntei ao meu pai e fiquei furiosa com ele, ele tinha dito á madre, aquilo não era para dizer era segredo. Não podia ser segredo disse-me. Era muito grave ele tinha de ter dito. Continuei sem perceber a gravidade do caso e durante vários dias fiquei sem falar ao meu pai, senti mesmo que me tinha traído. Com o tempo passou-me, assim como passou às minhas amigas. O que ficou sempre foi a magoa de não ter aquela amiga conosco, isso sim ficou sempre, nem nos tínhamos despedido e por mais que eu perguntasse às freiras para onde tinha ido nunca me disseram. Sei que foi ali naquela altura que passei a não querer que me contassem nada que eu não percebesse. Durante muitos anos se não percebia, não perguntava, não era para eu saber e fim. Quando anos mais tarde percebi a história, chorei muito no ombro do meu pai. Ele tinha de dizer sim. Era um crime o que acontecia, não podia ficar calado, mas elas as freiras não tinham de nos ter colocado de castigo, não tinham de ter expulsado a minha amiga, não era ela a culpada. Aquela história foi mais uma das muitas que me fizeram deixar de acreditar em tudo o que me ensinavam na missa e no colégio, aquela história foi uma das que me fez descrente na bondade das gentes da igreja. Aquela história, passou-se ali, eu ainda estou viva para a lembrar, talvez a minha amiga também e talvez ainda lhe doa como dói a muitos dos abusados pelas igrejas por este mundo fora. Por isso senhor presidente, não, não pode passar a mão sobre este crime, pois ele destruiu a vida de muita gente, quem sabe da minha amiga! Há crimes senhor presidente que não tem desculpa e este é um deles! É hediondo. E a sua fala é mais um crime para com as vitimas
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