O que ficou por dizer- 2014 - 1º revisao

 Durão Barroso surgiu hoje com pompa e circunstância para anunciar que aí vem "uma pipa de dinheiro" para Portugal. A notícia foi apresentada como uma grande conquista, quase como se o futuro estivesse garantido pela simples chegada de milhões de euros.

Mas, enquanto o discurso decorria, fiquei com a sensação de que havia muito mais por dizer.

Não ouvi falar de como esse dinheiro será distribuído, de quem dele beneficiará verdadeiramente ou de que mecanismos existirão para garantir que não acaba, mais uma vez, nas mãos dos grupos económicos e dos interesses de sempre. A experiência dos anteriores quadros comunitários ensina-nos que demasiado investimento nem sempre significou mais desenvolvimento, mais emprego ou uma melhoria efetiva da vida dos portugueses.

Também não ouvi dizer que estes fundos não são um presente. São instrumentos de uma estratégia europeia que exige reformas, contrapartidas e responsabilidades. Nada é gratuito em política, e muito menos nas relações entre Estados.

Ficou igualmente por esclarecer quem assumirá a responsabilidade se, daqui a alguns anos, voltarmos a descobrir projetos falhados, investimentos sem retorno ou milhões desperdiçados. A história recente do país aconselha prudência sempre que nos prometem prosperidade em embalagens douradas.

Há quem veja neste anúncio um gesto de solidariedade europeia. Outros verão uma oportunidade política para reforçar lideranças, consolidar carreiras ou alimentar ambições futuras. A política faz-se também destas leituras, e cada cidadão tirará as suas conclusões.

Os milhões podem representar uma oportunidade extraordinária para modernizar Portugal. Mas também podem transformar-se em mais uma oportunidade perdida, caso prevaleçam os interesses particulares sobre o interesse coletivo.

Os discursos enchem auditórios. O tempo, esse, encarrega-se sempre de revelar a verdade.

O que foi dito, todos ouvimos.

O que ficou por dizer… talvez tenha sido o mais importante.

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