O Espetáculo Gratuito Mais Caro do País-2013 1º revisao
Há um mistério que nunca consegui resolver.
Este ano, os concursos de apoio às artes deixaram muitas companhias e associações culturais de Évora numa situação dramática. Para muitas delas, os apoios simplesmente desapareceram.
Entretanto, a Câmara Municipal lançou um concurso para atribuição de apoios. O resultado foi anunciado. Dias depois, chegou a notícia de que não existia verba suficiente para pagar os montantes atribuídos.
O efeito prático foi devastador.
Projetos suspensos. Equipas desfeitas. Profissionais sem rendimento. Famílias inteiras empurradas para uma situação de enorme fragilidade. E, no caso de muitos trabalhadores da cultura, nem sequer existe a proteção do subsídio de desemprego, porque vivem há anos entre recibos verdes, contratos precários e prestações ocasionais.
Até aqui, infelizmente, nada de novo.
O extraordinário vem a seguir.
Apesar de tudo isto, as companhias continuam a cumprir a programação.
Como?
Simples.
Os artistas trabalham sem receber.
É aqui que a minha capacidade de compreender o mundo termina.
Alguém imagina entrar numa padaria e pedir um pão de graça porque o padeiro "gosta muito do que faz"?
Alguém vai ao talho exigir um bife sem pagar porque "a carne é um bem essencial"?
Conhecem algum empreiteiro que construa uma casa por amor à arquitetura?
Algum eletricista que diga: "Não faz mal, este mês vivo de aplausos"?
Eu nunca conheci nenhum.
Mas nós, na cultura, parecemos aceitar isso com uma naturalidade quase religiosa.
Não há dinheiro?
Faz-se na mesma.
Não há apoios?
Faz-se na mesma.
Não há salário?
Faz-se na mesma.
No fim, sobe-se ao palco, sorri-se ao público e agradecem-se os aplausos.
Os aplausos são maravilhosos.
O problema é que o banco não aceita aplausos para pagar a prestação da casa.
O supermercado não troca palmas por leite.
A companhia da eletricidade ainda não descobriu como converter reconhecimento público em quilowatts.
Há depois outro paradoxo delicioso.
Muitas vezes ouvimos dizer que os artistas vivem à custa dos impostos dos contribuintes, que recebem subsídios para "não fazer nada" ou que a cultura é um luxo.
Muito bem.
Então expliquem-me porque continuamos a oferecer espetáculos gratuitos quando nem sequer conseguimos pagar a quem os produz.
Acabamos por proporcionar o melhor de dois mundos: quem critica o investimento público na cultura não paga os apoios... e também não paga bilhete.
É um modelo extraordinário.
Insustentável, mas extraordinário.
Talvez esteja na altura de dizer o óbvio.
Sem financiamento, não pode haver programação permanente.
Sem remuneração, não pode haver trabalho artístico continuado.
Sem artistas, não há cultura.
E sem cultura, as cidades continuam a ter ruas, edifícios e praças.
Mas deixam de ter alma.
Talvez os artistas tenham de aprender uma lição difícil: por vezes, a forma mais eficaz de mostrar a importância do seu trabalho é parar.
Não por vingança.
Não por capricho.
Mas por dignidade.
Porque há uma verdade simples que continuamos a esquecer: a cultura tem valor. E aquilo que tem valor não pode viver eternamente do voluntarismo de quem a cria.
Talvez só no dia em que as cidades ficarem em silêncio, sem teatro, sem música, sem dança, sem exposições e sem artistas, alguém descubra aquilo que parecia tão evidente.
Que a cultura nunca foi gratuita.
Havia apenas quem estivesse, silenciosamente, a pagar a conta.
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