O Dia em que Évora Sangrou-2021 1º revisao

 Há datas que não pertencem apenas aos livros de História. Vivem na memória das famílias, passam de geração em geração e tornam-se parte daquilo que somos.

A invasão francesa de Évora foi uma dessas datas. Um dia de sangue, de medo e de destruição. Um dia em que a cidade foi massacrada e em que milhares de vidas foram destruídas pela violência da guerra.

Na minha família, conta-se que alguns dos meus antepassados tombaram nesse dia. Nunca saberei os seus nomes nem conhecerei os seus rostos, mas gosto de pensar que parte da minha história começou também nesse momento trágico.

Reza a tradição familiar que os que conseguiram sobreviver encontraram refúgio no "Canal". Assim lhe chamavam. Diziam os mais velhos que era um túnel que passava por baixo da antiga casa da família, conduzindo até à zona de São Domingos. Não sei se a memória lhe acrescentou detalhes ou se o tempo transformou a realidade em lenda. Mas sei que, durante gerações, essa história foi contada como verdade.

Depois do horror, veio a fuga.

Os sobreviventes abandonaram Évora com o pouco que conseguiram salvar. Mudaram-se de mala e cuia para a zona da Graça do Divor, regressando, de certa forma, às origens da família, cujos antepassados tinham vindo de Arraiolos muitos anos antes.

Imagino o silêncio dessa partida. As casas abandonadas, as ruas ainda marcadas pelo cheiro da pólvora e da morte, a incerteza de quem não sabia se algum dia voltaria. A guerra não destrói apenas edifícios; destrói vidas, raízes e memórias.

Mas os alentejanos sempre souberam resistir.

Passado o susto, quando o tempo permitiu sarar as feridas mais profundas, a família regressou a Évora. Porque há cidades que nos chamam de volta. Porque há lugares onde estão enterrados os nossos mortos e onde permanece aquilo que somos.

Sempre que passo pelas ruas antigas da cidade, penso que talvez esteja a caminhar sobre os passos daqueles que sobreviveram. Talvez tenha atravessado, sem o saber, os mesmos becos por onde correram para salvar a vida. Talvez tenha passado junto ao tal "Canal", hoje perdido entre as pedras, as casas e os séculos.

A História fala-nos de batalhas, de generais e de exércitos. As famílias recordam outra coisa: o medo, as perdas, a coragem dos anónimos e a esperança de recomeçar.

É por isso que estas memórias importam. Porque um povo não vive apenas da História que se escreve nos livros. Vive também da História que se conta à mesa, junto à lareira, entre pais, filhos e netos.

Enquanto houver alguém para contar estas histórias, aqueles que tombaram nunca serão verdadeiramente esquecidos.


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