Gerações em Expe ncia-2014 1º revisao

 


Todos os anos discutimos exames, médias, rankings, notas e acessos ao ensino superior. Todos os anos nos indignamos com uma injustiça diferente. Este ano, porém, a polémica em torno dos exames voltou a expor uma realidade que me incomoda há muito tempo: continuamos a tratar a educação como um laboratório onde cada geração serve de cobaia para a teoria pedagógica da moda.

É isso que mais me irrita.

Ao longo da minha vida vi sucederem-se modelos educativos com a mesma rapidez com que mudam os governos ou as correntes de pensamento. Primeiro, a educação da autoridade absoluta: os adultos mandavam, as crianças obedeciam e uma reguada fazia parte da aprendizagem.

Depois vieram os anos da Revolução. De repente, tudo parecia possível. A autoridade foi posta em causa e muitas famílias oscilaram entre o pai austero e o pai que queria ser apenas amigo dos filhos.

Nos anos 80 chegou outra convicção: era preciso evitar frustrações. O "não" tornou-se quase um pecado. Protegia-se a criança de tudo, como se crescer fosse incompatível com aprender a lidar com os limites.

A escola acompanhou sempre estas mudanças.

Passámos da disciplina pelo medo para uma cultura em que ninguém podia ficar para trás e, mais tarde, para outra obsessão: selecionar os melhores, distinguir os excelentes, construir turmas de elite e acreditar que a excelência nasce da separação.

Foi aí que comecei a desconfiar.

A minha filha entrou na Escola Primária de São Mamede numa turma onde, por um erro administrativo, conviviam crianças de diferentes origens sociais. Poucos dias depois chamaram-me. A diretora queria corrigir o "erro" e transferi-la para uma turma mais adequada ao perfil da família.

Recusei.

Disseram-me que estava a desperdiçar uma oportunidade. Houve quem me chamasse imatura. Familiares criticaram a decisão.

Nunca me arrependi.

Durante quatro anos foi feliz. Aprendeu a ler, a escrever, a fazer contas, mas também aprendeu algo que não vinha nos manuais: que o mundo é feito de pessoas diferentes, que a amizade não depende da profissão dos pais e que brincar é uma forma séria de aprender a viver.

No 7.º ano, porém, não houve qualquer erro.

Foi colocada numa turma de excelência.

Passei três anos a tentar mudá-la.

Nunca consegui.

Olhavam para mim como se fosse louca. Diziam-me que qualquer mãe sonharia ver a filha rodeada dos melhores alunos da escola. Os diretores não compreendiam a minha insistência. Alguns pais quase me tratavam como irresponsável.

A única pessoa que me entendia era ela.

Detestava a competição permanente. Não suportava a obsessão pelas notas. O quadro de honra dizia-lhe muito pouco. Sentia-se deslocada num ambiente onde, tantas vezes, o colega era visto como adversário.

No secundário respirou melhor.

Continuou rodeada de alunos muito inteligentes, mas encontrou também jovens que percebiam que a inteligência não precisa de viver em guerra com a alegria. Estudavam, sonhavam, divertiam-se e faziam planos para o futuro sem transformar cada teste numa batalha.

A minha filha encontrou o seu caminho.

Mas nem todos tiveram a mesma sorte.

Conheci jovens brilhantes que desmoronaram quando não conseguiram entrar no curso que idealizavam. Outros alcançaram todos os objetivos académicos e construíram carreiras de sucesso, mas parecem ter perdido pelo caminho a capacidade de criar laços, de olhar para os outros, de viver para além do currículo.

Não afirmo que a escola tenha criado sozinha essas vidas. A realidade é sempre mais complexa do que isso. Mas pergunto-me, vezes sem conta, se uma educação centrada quase exclusivamente na competição não terá ajudado a esquecer que formar pessoas é muito mais do que produzir excelentes alunos.

E agora chegamos a mais uma polémica em torno dos exames.

Mais uma geração confrontada com regras, mudanças, desigualdades e decisões tomadas em gabinetes que terão impacto durante muitos anos na vida de milhares de jovens.

Voltamos a discutir classificações quando talvez devêssemos estar a discutir o essencial.

Que adultos queremos formar?

Pessoas capazes de resolver equações, mas incapazes de lidar com um fracasso?

Profissionais brilhantes, mas indiferentes ao sofrimento dos outros?

Ou cidadãos completos, que saibam pensar, criar, cooperar, errar, recomeçar e viver em comunidade?

A educação não pode continuar a ser uma sucessão de experiências feitas sobre gerações inteiras.

Porque cada teoria passa.

Mas quem cresce dentro dela carrega-lhe as consequências para o resto da vida.

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