De Sol a Sol - 2025 1º revisao

 


Há quem lhe chame modernização da legislação laboral. Outros preferem falar em flexibilidade. Mas, olhando para o rumo de sucessivas alterações à lei do trabalho, a sensação é outra: trabalha-se mais, descansa-se menos e os direitos vão sendo limados, um de cada vez, sempre em nome da competitividade.

Primeiro foi isto. Depois aquilo. Agora mais uma proposta. Cada alteração, isoladamente, parece pequena; todas juntas desenham um caminho preocupante. Um caminho onde o tempo de trabalho se estende, a vida pessoal encolhe e o equilíbrio entre quem emprega e quem trabalha se torna cada vez mais frágil.

Se continuarmos nesta trajetória, qualquer dia o ideal será trabalhar de sol a sol, com férias reduzidas ao indispensável e folgas vistas como um luxo. Felizmente, esse cenário ainda não corresponde à lei, mas algumas das propostas em discussão alimentam o receio de que os direitos laborais possam continuar a ser enfraquecidos. escravatura é a preferencia

O mais curioso é que muitos dos que defendem esta lógica parecem acreditar que o problema da economia portuguesa se resolve exigindo sempre mais horas e mais disponibilidade aos trabalhadores. Como se a produtividade dependesse apenas do tempo passado no local de trabalho e não da inovação, da organização, da qualificação ou da boa gestão.

Eça de Queirós já retratava, no seu tempo, muitos dos vícios nacionais: o atraso, o provincianismo e a resistência à mudança. Mudaram as épocas, mudaram as palavras, mas continua a haver quem confunda progresso com retrocesso e competitividade com a redução sistemática dos direitos de quem trabalha.

No fim, talvez Eça tivesse mesmo razão. Em Portugal, há hábitos que parecem sobreviver a todas as reformas.


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