A Pobreza Como Teste Ideológico-2018 1º revisao
Voltamos ao centro da questão.
Parece que, para alguns, ser de esquerda implica uma espécie de voto de pobreza. Quem se assume de esquerda não pode ter património, não pode exercer cargos, não pode pertencer a instituições, não pode prosperar profissionalmente. Se o fizer, deixa imediatamente de ter legitimidade para defender as suas ideias.
É uma curiosa inversão do debate político.
Em vez de se discutir o mérito das propostas, discutem-se as contas bancárias. Em vez de se confrontarem ideias, escrutinam-se casas, carros, empregos e patrimónios. Como se a validade de uma convicção dependesse do saldo da conta ou da escritura de um imóvel.
O ataque começa num partido, segue para outro e, mais cedo ou mais tarde, acabará por atingir todos aqueles que se identifiquem com a esquerda. É uma leitura possível do momento político: transformar o debate ideológico numa sucessão de ataques pessoais, deslocando a atenção das políticas para a vida privada dos seus protagonistas.
Mas vale a pena fazer uma pergunta simples.
Quando foi que a esquerda defendeu que todos devíamos ser pobres?
Pelo contrário, o discurso que historicamente ouvimos é outro: que todos devem ter acesso a condições de vida dignas, ao trabalho, à saúde, à educação, à habitação e à cultura. A ambição nunca foi distribuir pobreza, mas reduzir desigualdades e aumentar oportunidades. Pode discordar-se da forma como esse objetivo é prosseguido, mas é esse o debate que importa.
A democracia ganha quando a política se faz de frente, com argumentos, projetos e propostas. Perde quando se transforma numa competição de suspeições, caricaturas e insinuações.
Portugal precisa de uma direita forte, de uma esquerda forte e de um centro forte. Precisa, sobretudo, de partidos que disputem a confiança dos cidadãos pela qualidade das suas ideias e não pela desqualificação pessoal dos adversários.
Façam política. Política limpa, transparente e intelectualmente honesta. Defendam as vossas ideias, desmontem as dos outros, convençam os eleitores.
O resto é apenas ruído.
E esse ruído, infelizmente, continua a confirmar o velho desabafo de Eça de Queirós: "Oh, país tão mal frequentado!"
Comentários
Postar um comentário