A Geografia Segundo o Medo-2026 1º revisao
Há dias em que a geografia deixa de ser uma ciência e passa a ser um exercício de imaginação.
Basta ouvir alguns discursos sobre imigração para perceber que o Estreito de Gibraltar encolheu, o Atlântico desapareceu e Portugal ficou ali, mesmo ao lado de Ceuta.
É simples: se os milhares de marroquinos que, no mesmo dia e à mesma hora, tentaram entrar em Ceuta decidissem começar agora a nadar e dessem bem aos braços, amanhã à hora do almoço já estariam em Monte Gordo. Às três da tarde, depois de uma breve pausa para secar a roupa, entrariam no casino para experimentar a sorte.
Pelo caminho, ignorariam correntes marítimas, distâncias, fronteiras, meios de vigilância e um pequeno detalhe chamado realidade.
A ironia é que, sempre que o tema da imigração surge, há quem transforme mapas em panfletos e factos em filmes de ação. Tudo acontece num instante. Tudo é iminente. Tudo é uma invasão.
Os problemas da imigração existem e merecem ser discutidos com seriedade: o controlo das fronteiras, as políticas de acolhimento, a integração, a segurança e o combate às redes de tráfico de seres humanos. Mas uma coisa é discutir problemas reais; outra é substituir a geografia pelo pânico.
Talvez fosse útil voltar a olhar para um mapa antes de olhar para as redes sociais.
É que o medo, quando exagera, tem um estranho talento: faz desaparecer oceanos, encurta continentes e transforma qualquer boato numa certeza absoluta.
E, convenhamos, nem o melhor nadador do mundo chega a Monte Gordo a tempo de ir jogar ao casino depois de atravessar metade da Península Ibérica a braçadas.
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