Quando a Democracia Incomoda os Donos da Europa - 2026 1º revisao

 A reforma laboral não passou porque a democracia funcionou. A maioria votou contra e, por isso, a intenção do Governo caiu. Simples. É assim que deveria funcionar um regime democrático. Mas, nesta Europa cada vez mais dominada por elites tecnocráticas e interesses que muitos consideram distantes da vontade popular, os amigos do costume vieram rapidamente em defesa do Governo. E, como não podia deixar de ser, reapareceu aquele velho vampiro das crises: o FMI. Lembram-se deles no tempo de Passos Coelho? Lembram-se da austeridade, dos cortes, da destruição económica e social que ajudaram a impor? E lembram-se também de, anos mais tarde, admitirem que tinham cometido erros graves nos cálculos e nas previsões? São os mesmos que regressam agora para dizer que as pensões mais baixas são demasiado altas e que devem ser reduzidas. Ora, acontece que as pensões mínimas rondam os 341,08 euros por mês. Não chegam sequer para garantir uma alimentação digna, quanto mais uma vida com o mínimo de conforto. E agora querem também mexer nas pensões de viuvez. Convém recordar uma coisa fundamental: a pensão de viuvez não é uma dádiva do Estado. Não é um favor do Governo. Resulta das contribuições feitas ao longo de uma vida para a Segurança Social ou para a Caixa Geral de Aposentações. É um direito adquirido por quem descontou e que, após a sua morte, é transmitido ao cônjuge sobrevivo nos termos da lei. O que defendem agora é a redução desse valor. Querem aproximar Portugal do modelo alemão, onde a pensão de viuvez corresponde a cerca de 60% da pensão original, em vez dos atuais 80% em muitos casos portugueses. O problema é que comparam percentagens, mas esquecem-se de comparar valores absolutos. Uma pensão na Alemanha não tem nada a ver com uma pensão em Portugal. O custo de vida pode ser elevado em ambos os países, mas os rendimentos de partida são incomparáveis. Diz o FMI que o sistema está em risco se não forem feitos cortes. Mas aquilo que o FMI se esquece de dizer — ou não quer dizer — é que muitas destas projeções assentam em pressupostos altamente discutíveis. Volto a escrever: discutíveis. Os estudos sobre a sustentabilidade da Segurança Social são frequentemente construídos com base em projeções populacionais que abrangem portugueses dos 15 aos 90 anos. Ora, sabemos perfeitamente que o número de reformados com 15 anos é residual, limitado a situações muito específicas de incapacidade profunda. Sabemos também que a esperança média de vida em Portugal ronda os 81 anos e que a população acima dessa idade representa uma parcela relativamente reduzida do total. 750 mil portugueses.  Perante isto, muitos cidadãos questionam se estes cenários são apresentados para informar ou para criar medo. Medo entre os contribuintes. Medo entre os pensionistas. Medo suficiente para justificar reformas estruturais que acabem por abrir caminho a uma maior privatização do sistema de proteção social.

A reforma laboral foi travada. Mas a cavalaria institucional entrou imediatamente em campo. Surgiram os alertas sobre o alegado perigo para as reformas, as previsões de menor crescimento económico e os avisos catastrofistas de sempre. Curiosamente, tudo isto surgiu poucos dias depois de o próprio Governo celebrar o desempenho da economia portuguesa e apresentar o país como um exemplo de sucesso. A famoosa frase do Luis " a economia portuguesa faz corar muitos paises da europa" Lembram-se?  A mensagem parece clara: quando as políticas favorecem os trabalhadores, aparecem logo os especialistas a anunciar desastres. Quando favorecem os mercados, chamam-lhes reformas necessárias. Mas sabem que mais? A culpa também é nossa. É nossa quando aceitamos sem questionar as recomendações de instituições internacionais que ninguém elegeu diretamente. É nossa quando votamos sistematicamente em partidos que colocam o mercado acima do Estado social. É nossa quando discutimos futebol durante horas, mas ignoramos decisões políticas que afetam salários, pensões, habitação e serviços públicos. É nossa quando repetimos orgulhosamente que não gostamos de política, esquecendo que a política gosta sempre de nós — sobretudo quando nos mantemos distraídos. Enquanto não exigirmos responsabilidade a quem governa, enquanto não combatermos a impunidade dos grandes devedores e dos interesses instalados, continuaremos a assistir ao mesmo filme: mais sacrifícios para quem trabalha, mais privilégios para quem manda.Continuemos, então, a hastear a bandeira do "eu não gosto de política". E veremos que tipo de país estaremos a deixar aos nossos filhos e netos.

Ai José Mario Branco, passados tantos anos continuas actual.

https://www.youtube.com/watch?v=_Adp77ivpT8

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

a violencia-2022

a cave do sertorio- 2021

alceu Valença e a orquestra de ouro preto-.2025