Quando a Austoridade começa a ser julgada - 2013 1º revisao
Quando a Austeridade Começa a Ser Julgada
Ora, parece que a realidade começa finalmente a impor-se.
Já não é apenas em Portugal, na Grécia ou na Irlanda que as receitas de austeridade impostas pelas troikas de credores internacionais são alvo de críticas. Na própria Alemanha, as equipas da Comissão Europeia — com especial destaque para Durão Barroso —, do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) começam a ser acusadas, com crescente insistência, de terem imposto políticas erradas aos países sujeitos a programas de assistência financeira.
Ainda bem.
Concordo com muitas dessas críticas, embora sem esquecer as enormes responsabilidades da Alemanha em todo o processo que conduziu à implosão do projeto europeu tal como o conhecíamos. As marcas deixadas pela senhora austeridade, Angela Merkel, são profundas e dificilmente apagáveis. Defendeu a austeridade com uma determinação férrea e, não raras vezes, com uma arrogância moral que dividiu a Europa entre povos supostamente virtuosos e povos alegadamente irresponsáveis.
Hoje, essa estratégia começa a revelar toda a sua fragilidade. A economia alemã ressente-se dos efeitos das políticas que ajudou a impor. Os países submetidos à austeridade deixaram de crescer, reduziram importações e enfraqueceram mercados fundamentais para as exportações alemãs. O resultado era previsível: a desaceleração chegou ao centro da Europa e ameaça transformar-se numa recessão que já ninguém poderá ignorar.
A questão que se coloca é simples: quem assume a responsabilidade?
Durão Barroso também não escapará a esse julgamento político. A História dificilmente o recordará como um defensor dos interesses dos povos europeus. Ficará antes associado a uma Comissão Europeia demasiado submissa ao eixo franco-alemão e incapaz de contrariar uma agenda económica que aprofundou desigualdades, destruiu emprego e lançou milhões de europeus na incerteza.
Não vale a pena, porém, perder demasiado tempo com figuras cujo legado está praticamente escrito.
O essencial é perceber se a Alemanha será capaz de corrigir o rumo. Se surgir uma liderança disposta a abandonar os dogmas da austeridade e a devolver prioridade ao crescimento, ao investimento e à coesão social, talvez a Europa possa recuperar parte da esperança perdida ao longo desta última década.
Se essa mudança acontecer, muitas das figuras que simbolizaram este ciclo político sairão naturalmente de cena. E então, talvez, até os mais fervorosos defensores da austeridade descubram que governar não é insistir no erro, mas ter a coragem de o reconhecer.
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