Quando as vitimas se transformam em carracos -2018 1º revisao

 

Quando as Vítimas se Transformam em Carrascos

Nunca me verão contra um povo, seja ele religioso ou não, qualquer que seja a sua origem. Os povos são frequentemente vítimas da propaganda, da manipulação e dos interesses daqueles que os governam. Por isso, a responsabilidade dos cidadãos comuns raramente pode ser equiparada à responsabilidade dos líderes que decidem, ordenam e executam políticas.

Escrevo isto a propósito de Israel.

Não estou contra os judeus enquanto povo. A história judaica é marcada por séculos de perseguições, discriminação e sofrimento. Estou, sim, contra a política expansionista e ultranacionalista do sionismo mais radical e contra os dirigentes israelitas que, ao longo de décadas, recusaram soluções duradouras para a convivência entre israelitas e palestinianos.

Os sucessivos governos de Israel foram acumulando violações, ignorando resoluções internacionais, expandindo colonatos e contribuindo para um conflito sem fim. Nos últimos anos, a situação agravou-se de forma dramática, alimentando a perceção de que o objetivo já não é apenas a segurança de Israel, mas a submissão definitiva de um povo que luta pela sua sobrevivência e pelo reconhecimento dos seus direitos nacionais.

O que mais me impressiona é a ironia trágica da História.

Um povo que conheceu a perseguição, o exílio e o horror do genocídio deveria ser o primeiro a compreender o sofrimento dos outros. Deveria ser o primeiro a reconhecer os perigos da desumanização e da violência indiscriminada. No entanto, demasiados responsáveis políticos israelitas parecem ter esquecido as lições que a própria História lhes ofereceu ao preço de milhões de vidas.

As declarações de alguns representantes políticos e militares israelitas, bem como a destruição sistemática que o mundo acompanha diariamente, chocam qualquer consciência democrática. A desproporção da força utilizada, o elevado número de vítimas civis e a devastação de Gaza levantam questões morais que ninguém de boa-fé pode ignorar.

O mais perturbador é a passividade da comunidade internacional.

Os mesmos países que se apresentam como defensores dos direitos humanos e do direito internacional revelam, neste conflito, uma complacência difícil de justificar. Onde deveria existir coerência, existem cálculos geopolíticos. Onde deveria existir indignação, existe silêncio. Onde deveria existir pressão diplomática, existem justificações.

Por todo o mundo, milhares de judeus manifestam-se em defesa dos direitos dos palestinianos. Esses demonstram que a humanidade está acima da identidade nacional, religiosa ou étnica. Esses provam que criticar as políticas de Israel não significa hostilidade contra os judeus.

A questão nunca foi religiosa.

A questão é política, moral e humana.

De um lado está um povo que vive sob ocupação, bloqueios, deslocações forçadas e bombardeamentos. Do outro está um Estado com uma das máquinas militares mais poderosas da região e com o apoio das maiores potências mundiais.

Por isso, a minha solidariedade está com as vítimas, com os civis inocentes e com todos aqueles que perderam familiares, casas, dignidade e futuro.

A História julgará os responsáveis.

Mas também julgará aqueles que assistiram a tudo isto em silêncio.

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