O temivel Abobora e os medos da minha infancia - 2021 1º revisao

 

O Temível Abóbora e os Medos da Minha Infância

Évora sempre foi uma cidade fértil em histórias, lendas e mitos. Algumas passavam de geração em geração, outras nasciam nos recreios das escolas, alimentadas pela imaginação das crianças e pelos receios dos adultos. E, como tantas outras crianças da minha geração, eu cresci rodeada dessas histórias que, de tanto serem repetidas, acabavam por parecer verdades absolutas.

Uma das mais persistentes tinha morada certa: o Café Portugal.

Eu e as minhas amigas ouvíamos vezes sem conta que, se entrássemos no Portugal, acabaríamos drogadas. Diziam-nos que os drogados que por lá andavam nos fariam mal, que era um lugar perigoso e que devíamos passar longe dali. E, entre todas as figuras que habitavam aquelas histórias assustadoras, havia uma que surgia sempre como o grande vilão: o Abóbora.

Curiosamente, nunca ouvi essas coisas em casa. Mas bastava escutá-las na rua, na escola ou entre amigos para que a imaginação fizesse o resto.

Durante anos, sempre que passava em frente ao Café Portugal, encostava-me à parede da loja do Anselmo, como quem procura proteção contra um perigo iminente. E, se avistava o Abóbora ao longe, mudava de passeio, acelerava o passo ou simplesmente fugia. Na minha cabeça de criança, ele era quase uma personagem saída de um filme de terror.

Mas eu sempre tive uma relação complicada com os medos. Quanto mais medo tinha de alguma coisa, mais vontade sentia de a enfrentar.

Devia ter uns onze anos quando resolvi pôr um ponto final naquela história.

Saí de Santa Clara, enchi-me de coragem e decidi que ia lanchar ao Café Portugal.

Lembro-me de entrar como quem entra em território inimigo. Sentei-me, pedi uma torrada e fiquei a vigiar tudo e todos. Tenho quase a certeza de que nem mastiguei. Engoli a torrada à velocidade da luz, paguei e saí dali mais depressa do que tinha entrado.

Mas aconteceu uma coisa extraordinária.

Não fui drogada.

Ninguém me fez mal.

E o mundo não acabou.

Perante tão surpreendente descoberta, resolvi repetir a experiência. Primeiro com cautela, depois com mais confiança. Durante algum tempo mantive o hábito de lanchar e sair rapidamente, como quem ainda não acredita totalmente na sua própria coragem. Mais tarde comecei a ir com amigos e, sem dar por isso, o Café Portugal transformou-se na minha segunda casa.

Ali passei tardes, noites, conversas, gargalhadas e uma boa parte da juventude, até ao dia em que fechou portas.

Quanto ao Abóbora, a história demorou um pouco mais.

Durante muitos anos continuei a vê-lo ao longe, rodeado dos seus amigos no fundo do café, enquanto eu permanecia na zona do meio com os meus. Não o conhecia, mas continuava a carregar aquela imagem construída pelos medos da infância.

E, acreditem ou não, ainda tive alguns pesadelos com ele.

Até que um dia, sem saber muito bem como nem porquê, acabámos à conversa na esplanada.

E foi aí que o monstro desapareceu.

Descobri uma pessoa bem diferente daquela personagem assustadora que a minha imaginação tinha criado. Conversa puxa conversa, começaram os cumprimentos, os encontros ocasionais nas festas e noutros locais da cidade, e a vida foi fazendo o seu trabalho silencioso.

Apesar das diferenças, tornámo-nos amigos.

Ele achava graça àquela miúda que eu ainda era, e eu fui percebendo que tinha passado anos a ter medo de alguém que nunca me tinha feito mal.

Um dia contei-lhe a verdade.

Contei-lhe que, em criança, tinha pesadelos com ele.

Ainda hoje me lembro da gargalhada.

Riu-se às bandeiras despregadas, como quem recebe o elogio mais inesperado da vida. E talvez tenha sido nesse momento que a nossa amizade mudou de patamar.

A partir daí passei a ser "mana".

Aliás, era assim que ele tratava todos aqueles de quem gostava verdadeiramente.

Hoje, quando penso nisso, não consigo evitar um sorriso.

Passei anos a fugir de uma pessoa que acabaria por me oferecer amizade.

Talvez seja essa a maior lição desta história.

Os monstros da infância raramente existem fora da nossa cabeça. Crescem alimentados pelos receios dos outros, pelas histórias mal contadas e pela imaginação sem travões. Depois, um dia, aproximamo-nos deles e descobrimos que, afinal, eram apenas pessoas.

Pessoas com defeitos e virtudes, como todas as outras.

E algumas delas acabam até por nos chamar "mana".

Quem diria que o terrível Abóbora da minha infância acabaria por se tornar uma das memórias mais ternurentas da minha juventude?



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