O Aviso das Urnas -2018 1º revisao
A Hungria, a Itália e, mais recentemente, outros países europeus têm assistido ao crescimento ou à consolidação de forças políticas à direita. No nosso próprio quintal europeu, existem hoje governos e partidos no poder que defendem posições frequentemente consideradas incompatíveis com alguns dos princípios e valores consagrados nos tratados europeus. Ainda assim, não se ouvem com a mesma intensidade as vozes indignadas que tantas vezes ecoam quando fenómenos semelhantes acontecem fora das fronteiras da União Europeia.
E isso levanta uma questão legítima: afinal, o que vai a Europa fazer?
Durante décadas, os líderes europeus apresentaram a defesa da democracia, dos direitos fundamentais e do Estado de direito como pilares da sua ação política, tanto interna como externamente. Foram esses princípios que justificaram críticas a outros países, sanções diplomáticas e até intervenções políticas em cenários internacionais. Mas quando os desafios surgem dentro de portas, a resposta parece muitas vezes mais cautelosa, mais lenta e, por vezes, contraditória.
No entanto, a questão mais importante talvez nem seja essa.
A verdadeira pergunta que a esquerda europeia deveria estar a fazer a si própria é outra: porque estão tantos eleitores a virar-lhe as costas?
Porque razão milhões de cidadãos, em países tão diferentes entre si, optam por votar em partidos que prometem precisamente o contrário daquilo que durante décadas lhes foi apresentado como o caminho inevitável?
É fácil responder com rótulos. É fácil acusar os eleitores de ignorância, populismo ou radicalismo. O difícil é admitir que, quando um fenómeno se repete em vários países ao mesmo tempo, talvez exista um problema mais profundo.
Talvez haja populações que se sentem esquecidas.
Talvez haja trabalhadores que não veem melhorias nas suas vidas.
Talvez haja jovens sem perspetivas.
Talvez haja comunidades que sentem que as suas preocupações são ignoradas ou tratadas com arrogância.
E talvez, apenas talvez, a esquerda europeia tenha passado demasiado tempo a falar para si própria e demasiado pouco a ouvir quem diz representar.
A democracia tem uma característica incómoda: quando os eleitores votam repetidamente numa determinada direção, não basta condenar o resultado. É preciso compreender as causas.
A História mostra-nos que os grandes períodos de instabilidade política raramente surgem do nada. Nascem da acumulação de erros, da incapacidade de ouvir sinais de descontentamento e da ilusão de que determinados consensos são eternos.
Não, a Europa de hoje não é a Europa dos anos 30 do século passado. As circunstâncias são diferentes e as instituições são incomparavelmente mais sólidas. Mas a História também ensina que ignorar os avisos das urnas costuma sair caro.
Por isso, talvez este seja o momento para menos indignação automática e mais reflexão séria.
Menos moralismo.
Menos discursos de superioridade.
Mais análise.
Mais autocrítica.
Mais capacidade de compreender porque razão tantos europeus estão a escolher caminhos diferentes daqueles que lhes foram propostos durante décadas.
Porque as urnas não são apenas instrumentos de escolha.
São também instrumentos de aviso.
E os avisos, quando ignorados durante demasiado tempo, acabam quase sempre por ter consequências.
Comentários
Postar um comentário