Eva Wilma: A Noite em Que o Teatro Venceu a Escuridão -2021 1º revisao

Eva Wilma: A Noite em Que o Teatro Venceu a Escuridão

Hoje morreu uma das atrizes brasileiras de quem mais gostava.

Vi-a duas vezes em palco. Todas as outras vezes encontrei-a através do ecrã, no teatro filmado, na televisão ou no cinema. Mas foram aquelas duas noites que guardo na memória e que hoje regressam com uma força especial.

A última aconteceu há 21 anos, no Teatro Tivoli, na famosa noite do apagão.

Estava em cena "Madame", de Maria Velho da Costa. No palco encontravam-se duas gigantes da representação: Eva Wilma e Eunice Muñoz.

Pouco tempo depois do início do espetáculo, a luz foi abaixo. De repente, a sala mergulhou na escuridão. O silêncio instalou-se por breves segundos, daqueles que parecem durar uma eternidade.

Foi então que aconteceu algo extraordinário.

Eva Wilma recuperou de imediato da surpresa e começou a improvisar. Chamou pela sua "comadre", integrou a falta de luz na narrativa e transformou o imprevisto em matéria teatral. Poucos instantes depois, uma aderecista trouxe uma lanterna para iluminar os rostos das atrizes, e Eva continuou como se nada tivesse acontecido. Inventava uma nova peça dentro da peça, construindo diálogo, tensão e humor a partir do inesperado.

O teatro, afinal, estava vivo.

Mas nem todos conseguiram acompanhar aquele momento.

Eunice Muñoz, visivelmente perturbada pela situação, não conseguiu entrar na improvisação. O diretor acabou por interromper a representação e explicar ao público que o espetáculo não poderia prosseguir. Quem quisesse poderia regressar noutra data para assistir à peça.

E foi exatamente isso que fiz.

Voltei uma semana depois para ver "Madame". Mas confesso que já não regressava apenas pela peça. Regressava para ver Eva Wilma.

Naquela noite do apagão, ela tinha-me mostrado algo raro: a diferença entre representar e dominar verdadeiramente a arte de representar. Quando tudo falhou — a eletricidade, a encenação e a normalidade da representação — foi o talento puro que ficou em cena.

A admiração que já sentia por Eva Wilma cresceu enormemente naquele dia.

Ao longo de décadas, deixou um legado impressionante de personagens, interpretadas com elegância, inteligência e uma naturalidade que parecia impossível. Mas, para mim, nenhuma memória será mais forte do que a daquela noite em que o teatro ficou às escuras e ela decidiu não abandonar o palco.

Porque há artistas que brilham quando os focos estão acesos.

E há artistas raríssimos que continuam a iluminar tudo quando as luzes se apagam.

Eva Wilma era uma dessas artistas.

Obrigado, Eva Wilma.

E até sempre.

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