Entre as Marchas e a Memória -2019 1º revisao
Hoje fui ver as Marchas.
Não são uma tradição de Évora, pelo menos não da cidade. São, sobretudo, uma tradição das zonas rurais que nos rodeiam, onde continuam a mobilizar coletividades, famílias e comunidades inteiras. Ainda assim, encaixam bem no espírito da Feira de São João, trazendo cor, música, alegria e aquele sabor popular que tão bem combina com as noites de verão alentejanas.
E, convenhamos, numa época em que tantas tradições vão desaparecendo, é sempre bom ver manifestações culturais que continuam vivas e capazes de juntar gerações à volta de um palco, de uma rua ou de um recinto festivo.
Enquanto assistia ao desfile, porém, não consegui evitar um pensamento. Se as Marchas ajudam a dar alma à Feira de São João, talvez esteja na altura de recuperarmos também algumas das tradições que eram genuinamente nossas.
Refiro-me aos antigos Desfiles Joaninos, que durante anos fizeram parte da identidade festiva da cidade e que muitos eborenses ainda recordam com carinho. Não eram apenas um espetáculo; eram uma forma de a cidade se mostrar a si própria, de envolver associações, escolas, grupos culturais e cidadãos numa celebração coletiva da sua história e da sua criatividade.
As cidades vivem tanto do património que preservam como das tradições que mantêm vivas. Quando uma tradição desaparece, perde-se mais do que um evento: perde-se um pedaço da memória coletiva.
Por isso, enquanto aplaudia as Marchas desta noite, dei por mim a sonhar com o regresso dos Desfiles Joaninos. Não por saudosismo, mas porque acredito que as tradições só sobrevivem quando alguém decide dar-lhes uma nova vida.
Quem sabe se um dia alguém ligado à cultura não se apeita e mete mãos à obra?
É que a Feira de São João já tem o cenário, já tem o público e já tem a vontade de celebrar. Talvez lhe falte apenas recuperar mais um pedaço da sua própria história.
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