E a Maluca Sou Eu? - 2017 1º revisao
A Évora da minha adolescência era uma cidade ainda mais conservadora do que é hoje.
Não eram muitas as raparigas da minha idade que frequentavam bares ou cafés. Ao cinema iam acompanhadas pelas mães. As pastelarias e os salões de chá eram espaços aceitáveis, mas o Café Portugal? Isso era outra conversa. Diziam que era lugar para adolescentes malucas, rebeldes ou, segundo os mais exagerados, até para aquelas que “não andavam em bons caminhos”.
A noite estava praticamente proibida. A não ser o baile, claro, mas devidamente acompanhadas e com todas as regras de segurança familiar bem apertadas. As amizades com rapazes ficavam limitadas à escola ou a uma ou outra festa de domingo à tarde, onde os olhares dos adultos funcionavam como uma espécie de polícia invisível.
Por isso, durante o dia, muitas meninas vingavam-se.
Faziam coisas que jamais confessariam aos pais. Pequenas transgressões, pequenas aventuras, pequenas fugas a uma vida onde quase tudo era controlado.
E a Feira de São João era o grande território da liberdade.
Ali podiam andar mais soltas. Passavam tardes inteiras nas pistas, nos carroceis, entre música, luzes e aquela confusão alegre que só uma feira consegue ter. Provavam bebidas que em casa seriam proibidas, trocavam olhares com rapazes e descobriam, talvez pela primeira vez, uma sensação de independência.
Os rapazes da feira conheciam bem o jogo. Eram especialistas em conversa fácil, em promessas bonitas e em cantadas ensaiadas. Eles davam senhas e fichas para as diversões; elas davam conversa, risos e atenção.
Para quem tinha passado o ano inteiro dentro de regras apertadas, aquilo parecia o paraíso.
E, como acontece quando alguém experimenta liberdade sem grande preparação, algumas acabavam por acreditar em histórias que eram mais antigas do que elas. Os rapazes das pistas, habituados àquele ambiente, sabiam exatamente como conquistar quem estava a viver os primeiros momentos de rebeldia.
Era relativamente comum que, no final da feira, desaparecessem uma ou duas raparigas.
Os pais, aflitos e envergonhados, garantiam que tinham sido levadas pelos feirantes.
Nós, que éramos da idade delas, sabíamos que muitas vezes não era bem assim.
Tinham ido porque queriam.
Um ou dois meses depois, lá regressavam à cidade. Muitas vezes vinham acompanhadas de novas histórias, afirmando com toda a convicção que tinham sido levadas contra a vontade. Depois disso, as rédeas apertavam ainda mais. Algumas deixavam a escola. Pouco tempo depois aparecia um bebé e, com ele, a explicação que todos fingiam não ter visto chegar.
Numa cidade pequena, onde tudo se sabe mas quase tudo se finge não saber, os segredos sobreviviam porque todos colaboravam na mentira.
Foi precisamente um desses casos — o desaparecimento da filha de uma colega da minha mãe — que durante anos me serviu de comparação sempre que eu fazia alguma coisa fora dos padrões esperados.
E eu fazia muitas.
Cada vez que alguém me dizia que eu era “uma maluca”, lá vinha a história dela como exemplo de perigo e perdição.
Até que um dia, cansada daquela comparação, respondi pela primeira vez aquilo que ainda hoje digo muitas vezes:
“E a maluca sou eu?”
Porque às vezes a verdadeira loucura não está em quem procura viver a sua vida.
Está numa sociedade que controla, julga e condena, mas depois fecha os olhos perante aquilo que realmente acontece.
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