A Voz que Ainda Está por Voar -2014 1º revisao
Hoje escutei, ao longe, a voz de Gisela Silva. Tive pena de não estar mais perto, de não poder apreciar o espetáculo na plenitude que ele certamente merecia. Ainda assim, bastaram alguns instantes para reconhecer aquela sonoridade tão particular e sentir a nostalgia de quem reencontra algo de que já tinha saudades.
Há vozes que se ouvem. Outras sentem-se.
A da Gisela pertence claramente ao segundo grupo.
Para mim, e para muitos outros, Gisela Silva é uma das melhores vozes femininas de Évora. Possui uma rara combinação de técnica, sensibilidade e emoção, capaz de transformar uma simples interpretação num momento especial. Há uma limpidez na sua voz, uma espécie de brilho cristalino, que prende a atenção e deixa sempre a sensação de que queremos ouvir mais uma canção.
E, no entanto, continuo a acreditar que ainda não conhecemos toda a dimensão do seu talento.
Há artistas que revelam tudo o que são desde o primeiro instante. Outros parecem guardar dentro de si territórios ainda por explorar, emoções ainda por libertar e voos ainda por fazer. A Gisela pertence a esse grupo de artistas que nos deixam a impressão de que existe sempre mais qualquer coisa para descobrir.
Tenho a convicção de que, um dia, ela deixará essa voz interior soltar-se por completo, sem reservas nem receios. E quando isso acontecer, será difícil encontrar limites para aquilo que poderá alcançar. Porque talento não lhe falta, presença também não, e emoção muito menos.
Por isso, mais do que um elogio, estas palavras querem ser um reconhecimento. Reconhecimento pelo percurso, pela dedicação à música e pela capacidade de continuar a emocionar quem a escuta.
Parabéns, Gisela.
E já agora permito-me deixar uma sugestão aos músicos que a acompanham, Rui Gonçalves e Domingos. Imagino este projeto enriquecido pelo som quente e profundo de um violoncelo e pela expressividade de um saxofone. Seriam novas cores sonoras, novos caminhos e novas possibilidades para uma formação que já possui qualidade e identidade próprias.
Quem sabe?
Por vezes, bastam dois instrumentos para abrir horizontes inesperados.
E quando há talento, sensibilidade e vontade de crescer, o mundo deixa de parecer um destino distante e transforma-se apenas no próximo palco.
Que a música continue a fazer o resto.
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