A Queda do Império? Uma Nova Ordem Mundial a Nascer - 2022 1º revisao

 Tenho para mim que, depois desta guerra, os países do Oriente voltarão a assumir o protagonismo mundial, tal como aconteceu em diferentes momentos da História. Os impérios nunca foram eternos e o centro do poder tem mudado de mãos ao longo dos séculos. Talvez estejamos, uma vez mais, perante uma dessas grandes viragens.

Neste momento, o que está em jogo no tabuleiro internacional é muito mais do que a ocupação de um país. O que verdadeiramente se disputa é a liderança do mundo. Uma mudança de poder que já se desenhava há alguns anos, mas que esta guerra poderá acelerar de forma abrupta.

Não tenho muitas dúvidas de que, num futuro não muito distante, uma parte significativa das transações comerciais internacionais deixará de ser feita em dólares. Talvez este seja, aliás, um dos verdadeiros motivos que alimentam este conflito. Também não acredito que venha a ser o rublo a ocupar esse espaço. As minhas fichas estão na moeda chinesa, sustentada por uma economia produtiva e por ativos tangíveis, em contraste com um sistema financeiro que muitos consideram excessivamente dependente da confiança no dólar.

Se conseguirmos atravessar esta tormenta sem que algum líder tresloucado carregue no botão nuclear, o mundo que surgirá depois será profundamente diferente daquele que conhecemos. Os países do Oriente voltarão a ditar muitas das regras da geopolítica mundial. China, Rússia, Índia e Turquia procuram afirmar-se como um bloco alternativo ao domínio norte-americano, apoiando-se no peso demográfico, industrial, energético e no acesso a matérias-primas estratégicas.

Grande parte dos países africanos observa esta mudança com expectativa. Muitos estão cansados de décadas de pobreza, dependência e promessas por cumprir. Também vários países da América Latina poderão aproximar-se deste novo eixo, por entenderem que representa uma alternativa ao modelo de influência dos Estados Unidos, frequentemente acusado de interferir na política interna da região.

Na Europa, o cenário é mais complexo. Tenho a sensação de que muitos líderes europeus ainda não compreenderam a profundidade da transformação em curso. O alinhamento quase automático com Washington poderá sair caro ao continente. A Alemanha, por exemplo, parece manter um pé de cada lado. Os alemães sabem que a sua indústria depende, em larga medida, de energia, matérias-primas e componentes produzidos na Ásia. Romper completamente com esse espaço económico significaria colocar em risco o próprio motor da economia alemã. Talvez por isso, muitas das sanções tenham sido mais simbólicas do que verdadeiramente devastadoras.

Quanto à guerra, receio que o desfecho dificilmente corresponda às expectativas do Ocidente. A Ucrânia enfrenta um adversário muito superior em recursos e capacidade militar, e a Europa poderá acabar por pagar um preço económico e político muito elevado. Ao mesmo tempo, Putin poderá argumentar que o Ocidente acabou por comprometer muitos dos princípios e valores que durante décadas afirmou defender.

A História ensina-nos que nenhuma potência permanece dominante para sempre. Dos impérios da Antiguidade ao domínio europeu, e deste à hegemonia norte-americana, o poder foi mudando de mãos à medida que mudavam as circunstâncias económicas, tecnológicas e militares. Talvez estejamos, precisamente, a assistir ao início de mais um desses ciclos históricos.

Naturalmente, ninguém pode afirmar com certeza como será o mundo daqui a vinte ou trinta anos. A História nunca se repete de forma exata, embora muitas vezes rime. Mas tudo indica que estamos perante uma profunda transformação da ordem internacional.

O que me parece mais provável é que o centro de gravidade do poder mundial continue a deslocar-se para Oriente. Se assim for, poderemos estar a assistir não apenas ao fim de uma guerra, mas ao princípio da queda de um império e ao nascimento de uma nova ordem mundial.

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