A noite em que a Midus desafiou o circo -2021 1º revisao
A Noite em que a Midus Desafiou o Circo
Hoje era noite de São João. A feira enchia-se de gente vinda de todos os lados. Acotovelavam-se entre bancas e barraquinhas para comprar quinquilharias de que provavelmente nunca precisariam. Os mais novos amontoavam-se junto aos carrosséis, uns mais assustadores do que outros, fingindo uma coragem que nem sempre possuíam. A noite era feita de gargalhadas, gritinhos, música e confusão. Era noite de São João, a noite grande da feira, apenas superada pela noite do santo padroeiro, a de São Pedro.
E foi numa dessas noites de São João, algures na década de noventa, que vivi uma das aventuras mais inesquecíveis da minha vida.
A minha filha era pequena e andava há dias a pedir para ir ao circo. Queria porque queria ver os palhaços, os cavalos, os trapezistas e toda aquela magia que só existe debaixo de uma lona colorida. Como tinha recebido alguns convites na rádio, lá fomos nós: o Faustino, eu, a miúda e a Midus.
O circo fervilhava de vida. Entravam palhaços, saíam bailarinas, surgiam acrobatas, apareciam domadores. Tudo acontecia num ritmo alucinante, como se o espetáculo nunca pudesse parar. Os olhos da minha filha brilhavam de encantamento e eu divertia-me a vê-la absorver cada segundo daquela fantasia.
A certa altura entrou em cena um acrobata montado num cavalo magnífico. O animal era imponente, elegante, quase majestoso. O homem fazia o impossível: rodopiava sobre o lombo, desaparecia por baixo da barriga do cavalo, reaparecia do outro lado. O público prendia a respiração e explodia em aplausos a cada proeza.
Quando o número terminou, o apresentador lançou um desafio à assistência.
Quem fosse capaz de subir para o cavalo, colocar-se de pé e dar uma volta completa ao picadeiro receberia cinco contos. Naquela época, era uma pequena fortuna.
Voluntários não faltaram. Um após outro, tentaram a sorte. Um após outro regressaram ao lugar de orgulho ferido e mãos vazias.
Quando já parecia que ninguém mais se atreveria, vejo a Midus levantar-se.
Ainda hoje me lembro da sensação.
Vi-a começar a descer as escadas e senti o coração parar por um instante.
Tentei chamá-la. Tentei travá-la. Tentei tudo.
Mas quem conhecia a Midus sabia que, quando ela decidia uma coisa, não havia santo que a demovesse.
Ao meu colo, a miúda começou a chorar. Eu fingia uma serenidade que não sentia, tentando acalmá-la, enquanto por dentro tinha o coração aos saltos.
Lá em baixo, o apresentador transformou o momento num acontecimento. Anunciou ao público que aquela era a primeira mulher da noite a aceitar o desafio.
A Midus, porém, parecia alheia ao alvoroço.
Recebeu as instruções com uma tranquilidade desconcertante. Montou o cavalo. Deu algumas voltas sentada. E, de repente, perante centenas de olhos arregalados, levantou-se.
Ficou de pé.
O murmúrio percorreu as bancadas.
O cavalo continuava a correr em círculo e ela mantinha-se firme, equilibrada, como se tivesse nascido para aquilo.
O homem que controlava a corda tentou puxá-la para a desequilibrar. Mas ela resistiu, firme, segura, contrariando a força com o próprio corpo.
Não caiu.
Nem vacilou.
Mantinha-se ali, desafiante, perante o espanto geral.
Quando estava prestes a concluir a volta e a ganhar os cinco contos, aconteceu o inesperado.
O apresentador atirou algo para junto das patas do cavalo.
O animal assustou-se.
Num segundo, tudo mudou.
A Midus ficou suspensa, pendurada, pairando sobre a arena.
Juro que nesse instante deixei de respirar.
O tempo pareceu parar.
Mas ela acabou por chegar ao chão em segurança, sob uma explosão de aplausos que quase fez estremecer a lona do circo.
O apresentador, visivelmente aliviado, preparava-se para encerrar o episódio quando ela lhe arrancou o microfone das mãos.
Com a maior naturalidade do mundo, disse:
— Fizeram batota. Mas podem ficar com os cinco contos. Eu já me diverti.
E devolveu-lhe o microfone.
Assim.
Como quem comenta o estado do tempo.
Virou costas e regressou ao lugar como se tudo aquilo tivesse sido apenas um passeio no jardim.
Foi nessa altura que eu voltei a respirar.
O espetáculo continuou. Vieram mais números, mais aplausos, mais gargalhadas.
A minha filha saiu do circo em êxtase, convencida de que tinha assistido à coisa mais extraordinária do mundo.
O Faustino passou o resto da noite a ralhar.
Eu tinha as pernas a tremer.
E a Midus mantinha a mesma serenidade de sempre, como se nada de especial tivesse acontecido.
Só muitas horas depois a adrenalina me abandonou.
Foi uma noite de São João que ficou para sempre gravada na memória da nossa família. Uma dessas histórias que se contam vezes sem conta e que nunca perdem a graça.
Mas confesso que teve uma vantagem inesperada.
Depois daquela aventura, a miúda nunca mais quis voltar ao circo.
E eu, que nunca fui grande apreciadora do género, agradeci profundamente.
Hoje, depois de dois anos sem feira, dei por mim a recordar aquela noite.
É curioso como a saudade funciona. Começa por trazer-nos o cheiro das farturas, o som dos altifalantes, as luzes dos carrosséis. E, sem darmos conta, devolve-nos pessoas, gargalhadas e momentos que julgávamos adormecidos.
E ali estava ela outra vez.
Aquela noite de São João.
A minha filha pequenina.
O Faustino a ralhar.
Eu sem conseguir respirar.
E a Midus, destemida como sempre, a desafiar um cavalo, um circo inteiro e os nervos de quem a amava.
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