A Família que se Escolhe- 2023 1º revisao

 Ontem foi, dizem, o Dia da Família. Mais uma vez, percebi que, nesta matéria, sou uma mistura feita por gente que pensava de forma completamente diferente. Mas era gente que, apesar de tudo, deu certo.

A minha mãe, criada numa família matriarcal, acreditava que a família de sangue estava acima de tudo. Para ela, aqueles com quem partilhava o mesmo sangue eram as pessoas mais importantes da sua vida. Eram perfeitos aos seus olhos. Bastava estalarem os dedos para ela acudir. Aos "seus" nunca podia faltar nada, nem que para isso tivesse de correr seca e meca. Tinham sempre razão. Eram, para ela, as criaturas perfeitas da criação.

O meu pai, por sua vez, foi criado por uma avó e por um pai anarquistas. Aprendeu que o sangue era apenas um dos aspetos que ligavam as pessoas. Havia muitos outros valores capazes de aproximar alguém de quem não partilhava os mesmos genes e, da mesma forma, muitos motivos para afastar quem partilhava o mesmo apelido.

Eu fiquei algures a meio caminho.

Para mim, a família de sangue é importante quando partilha os valores em que acredito; quando assume as consequências dos seus erros e dos seus acertos; quando está disponível para mim da mesma forma que eu estou para ela; quando o amor é uma estrada de dois sentidos. Seja do meu sangue ou de outro qualquer, esses são os meus.

Por isso, tenho uma família feita de pessoas que escolhi e de outras com quem partilho laços de sangue.

Amo cada uma delas com as suas virtudes e os seus defeitos. E elas amam-me com os meus erros, os meus acertos e todas as minhas imperfeições.

Somos uma família. A nossa.

Daquelas que podem passar dias sem se ver, mas que sabem que estão sempre presentes. Daquelas que discutem hoje e fazem as pazes amanhã, porque ficar de costas voltadas dói a todos. Daquelas que fazem as melhores festas, porque não desperdiçam as coisas boas da vida. Daquelas que viajam juntas ou separadas, mas que desejam sempre o melhor para quem parte e para quem fica.

A minha família é composta por meia dúzia de amigos de uma vida inteira, para quem estou sempre disponível e que sei que estarão comigo até debaixo de água. Por meia dúzia de primos com quem vivi histórias de infância e com quem continuo a escrever novas memórias sempre que a vida o permite. Por oito sobrinhos emprestados, que me escolheram e que eu escolhi, para juntos vivermos histórias bonitas, sabendo que estamos apenas à distância de um telefonema.

É composta, sobretudo, pela minha filha, o ser que me escolheu para nascer. Nunca me falha e eu nunca lhe falho, mesmo que, para isso, tenha de falhar ao mundo. E pelos meus dois netos, esses pequenos seres que iluminam a minha vida e me lembram, todos os dias, que o amor é, afinal, o mais sublime e inesgotável dos sentimentos.

Ontem foi, dizem, o Dia da Família. Mas hoje também é. E amanhã voltará a ser.

Tenho a sorte de ter uma família linda. Não daquelas dos anúncios de margarina, nem daquelas que parecem perfeitas. Tenho uma família a sério. Daquelas com quem se pode contar em qualquer circunstância.

E isso, meus amigos, é como acertar sozinho no Totoloto. É ganhar o prémio máximo da vida.

A minha família é a minha maior riqueza. É por isso que sou feliz. E é por isso que agradeço à vida, todos os dias, o privilégio de a ter.

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