Fim da Direção Regional de cultura do Alentejo

 Corria o ano de 1991, o PSD tinha ganho as eleições e Cavaco era Primeiro Ministro. Portugal não tinha ministério da cultura e foi decidido criar delegações de cultura regionais.

Ana Borges é nomeada para abrir, coordenar e fazer arrancar a do Alentejo. Nao havendo espaço próprio, instalam a dita delegação, de 1 pessoa só, numa sala do Governo Civil.
Eu era lá secretaria, vi na 1º pessoa o nascimento da Delegação. Vi o espanto da Drª Ana Borge por não haver um levantamento do patrimônio do Alentejo, vi-a incrédula por não existir no território um documento estratégico para a cultura, vi-a chorar quando descobriu que não havia em todo o Alentejo, 1/3 do território um piano de cauda. Vi-a chorar quando não conseguiu nem 1/10 do orçamento do seu colega do Centro do Pais.
Trabalhou muito Ana Borge, para conseguir o mínimo dos meninos para colocar de pé a delegação. E colocou. reuniu uma pequena equipa, conseguiu um espaço mínimo na Praça Joaquim Antônio de Aguiar e deitaram mãos ao trabalho. Os governos mudaram, Ana Borges continuou a representar o estado central na região. eu sai do governo Civil e passei a relacionar-me com ela como agente. Uma posição diferente, mas mantive o mesmo respeito. Ana Borge até quando dizia que não aos pedidos de apoio era uma senhora.
O apoio aos agentes passou a ser um trabalho fundamental, o trabalho na area do patrimônio passou a ser levado a sério, pensado, estruturado com o investimento possível, mas com um objectivo de salvaguardar muito claro. depois tivemos aqui uns anos de má memoria, Ana Borge sai, é indigitado um representante que nos faz mais mal que bem, que nos delapida o orçamento, que não faz nada a favor do território, é nessa altura que me deixo de dar com a direcção regional, não vale a pena o esforço. Ainda estou sem grande ligação institucional, quando a Prof Aurora chega é direcção regional, mas só volto a ter ligação com esta instituição da região, já ela esta de saída, dizem os meus colegas, que o seu trabalho foi arrumar a casa, coloca-la de novo a funcionar, e eu acredito, aquilo devia estar virado no cão. Há 10 anos, Ana Paula Amendoeira, concorre à direção Regional ( já não ha indicações do estado é por concurso) e torna-se Directora Regional de Cultura de 1/3 do Pais.
A maior direcção regional, tem um orçamento ridículo. 1/3 do território com um dos maiores patrimônios edificados do Pais, é tratado por Lisboa como o parente pobre. Ana Paula amendoeira, disse no seu discurso de tomada de posse que vinha para lutar por todo o Alentejo, contra quem tivesse que ser. E foi isso que fez durante 10 anos. Brigou com os ministros, com os directores das artes, com os das finanças e conseguiu ganhar muitas lutas. Conseguiu fazer obras importantes para a preservação do patrimônio edificado em TODO o Alentejo. Ela correu, do Alto para o Baixo, do Litoral para o interior do Alentejo, apagando fogos, ajudando presidentes de câmara em lutas pelos seus edificados, pelos seus agentes. Acompanhou candidaturas a Patrimônio da Humanidade e obrigou a que de Lisboa olhassem para o Alentejo, mesmo que a contra gosto.
Protegeu os agentes TODOS, quando ficamos de fora dos concursos nacionais, todos os do Alentejo. Apoiou TODOS, na pandemia, coisa que as outras direções de cultura do pais não fizeram. A direção Regional de Cultura do Alentejo, tornou-se um parceiro estratégico, quer para os trabalhadores da cultura ( da popular á erudita), quer para as empresas de cultura, quer para os municípios. Era a representação do Ministério no território, com conhecimento próximo e privilegiado. Foi ao ponto de brigar com as explorações de agricultura intensiva, obrigando-as a não arrasar o patrimônio importante da Região, pelo menos as que conseguiu. E esta foi uma briga dura, contra poderes gigantescos, apoiados pelo ministro da agricultura. Fez muitas outras coisas que não estou a par, mas que cumpriam a palavra dada lá no inicio, salvaguardar o Patrimônio material e imaterial da Cultura do Alentejo. Mas eis que o PS, não acha isso importante e vai dai, um partido que fala da regionalização, coisa que Cavaco lá na decada de 90 nem queria ouvir falar, um partido que se diz de esquerda, coisa que o PSD da decada de 90 abominava, resolve acabar com as direcções regionais e passar as competencias destas para as CCDR's. Aquele órgão do governo nos territórios, onde os presidentes, vices e demais órgão não são votados, não dão justificações às populações e fazem com os fundos que recebem o que querem e como querem.
É ai que foi parar a Cultura do Alentejo.
Quinta Feira passada, fui a Portalegre ouvir Ana Paula amendoeira, despedir-se do papel que desempenhou durante todos estes anos. Fui perceber que na minha area, não se sabe nem como vai ser, nem como vai funcionar, mas fui ficar a saber que o Patrimônio do Alentejo vai ficar dependente de um organismo com sede no Porto. Que no Porto vão decidir se é ou não importante arranjar a Torre do Castelo de Beja, o aqueduto de Elvas, o Castelo de Monsaraz ou a Sé de Évora. Sim meus senhores, no Porto é que vai ser decidido se é ou não importante arranjar o Patrimônio Edificado de todos nós. Lembrei-me de Ana Borges, e das lagrimas que chorou quando aqui chegou e as minhas teimaram em cair.
Assisti ao nascimento de um organismo que foi pensado para ajudar a preservar os patrimônios e as culturas das regiões do Pais, e assisti à sua morte. E se na época era nova demais para conseguir ver a importância que isso tinha, hoje sou velha demais para não ver a desgraça que se avizinha. E é por isso, que ali naquela sala, muitos de nós nos dispusemos a fazer parte de um movimento da sociedade civil para, nem que seja informalmente, fazermos pressão para que estas valências voltem para as regiões. É importante que lutemos pelo que nos pertencem, não deixando que delapidem o que os nossos antepassados nos deixaram, não deixando que as lutas do passado para preservar a nossa cultura, seja agora enlameado.
A direção Regional de Cultura é extinta no fim do ano, temos todos que estar prontos para lutar com garra para não deixar que o Alentejo perca o que de mais importante o define A CULTURA, honrado os nossos antepassados.
Obrigado a todos e todas que trabalharam desde a década de 90 na Direcção Regional de Cultura do Alentejo.

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