Portugal, o País da Cunha: O Problema Não Está Apenas no Sistema. Está em Nós - 2026 1º revisao
O Prémio Nobel da Economia colocou recentemente no papel aquilo que os portugueses sabem há muito: Portugal vive prisioneiro de um sistema de cunhas, compadrios e corrupção que trava o desenvolvimento do país e prejudica todos os cidadãos.
Nada disto é novidade. É histórico. Há décadas que nos movemos num modelo onde o mérito é frequentemente ultrapassado pela proximidade, pela influência e pelo favor.
Os altos cargos raramente resultam de concursos verdadeiramente competitivos. São, demasiadas vezes, preenchidos entre os apadrinhados do regime, seja qual for a cor política. Os empregos conseguem-se através de um conhecido que "fala com alguém", de um telefonema que abre portas, de um favor que contorna regras que deveriam ser iguais para todos.
É um sistema de compadrio que impede o país de crescer. Um sistema profundamente injusto, mas extraordinariamente resistente. E resiste porque, apesar de todos o criticarmos, continuamos a alimentá-lo.
Individualmente, dizemos mal. Contestamos. Queixamo-nos da corrupção, da ineficiência, da falta de igualdade de oportunidades. Dizemos que o sistema nos lesa e que assim Portugal nunca sairá da mediocridade.
Mas essa indignação dura apenas até o problema nos bater à porta.
Quando precisamos de acelerar um processo, de resolver um assunto na administração pública ou de conseguir uma oportunidade profissional, a primeira reação raramente é esperar que as instituições funcionem. A reação é perguntar: "Conheces alguém?" Procuramos quem possa dar uma palavra, fazer um telefonema ou mexer os cordelinhos.
Convencemo-nos de que são apenas pequenas exceções. Dizemos que "isto não é corrupção". Que a verdadeira corrupção acontece apenas nos gabinetes ministeriais, nos grandes negócios do Estado ou nos escândalos que fazem manchetes. Justificamo-nos afirmando que recorremos à cunha porque "o sistema não funciona".
Mas talvez essa seja a maior mentira que contamos a nós próprios.
Não recorremos apenas à cunha porque o sistema é mau. O sistema também é mau porque recorremos constantemente à cunha. Ela faz parte da nossa cultura social, sedimentada ao longo de séculos de funcionamento assente na recomendação, no favor e na proximidade pessoal. Tornou-se um comportamento normal, quase invisível.
E enquanto a aceitarmos como algo natural, dificilmente construiremos instituições verdadeiramente imparciais.
O exemplo mais evidente está na política. Vemos dirigentes condenados ou investigados por corrupção, tráfico de influências ou negócios lesivos para o Estado regressarem ao poder pelas mãos do voto popular. E justificamos esse voto com uma frase que já faz parte do nosso imaginário coletivo: "É corrupto, mas faz."
Essa expressão vale mais do que qualquer estudo sobre a sociedade portuguesa. Nela cabe toda a normalização da corrupção. Não apenas a tolerância, mas a sua legitimação moral. O importante deixa de ser a integridade e passa a ser a eficácia, ainda que construída à custa da violação das regras que deveriam proteger todos.
O Nobel da Economia identifica este problema e aponta caminhos para a mudança: instituições mais transparentes, processos baseados no mérito e mecanismos que reduzam os incentivos ao favoritismo.
Mas há uma questão mais difícil do que qualquer reforma legislativa.
Será que nós queremos realmente mudar?
Será que estamos dispostos a abdicar da pequena cunha que um dia nos poderá ser útil? Será que aceitaremos esperar na mesma fila que todos os outros? Será que recusaremos um favor quando ele beneficiar os nossos interesses?
Tenho muitas dúvidas.
Porque os sistemas não sobrevivem apenas pela vontade dos governantes. Sobrevivem porque são aceites, reproduzidos e alimentados por milhões de pequenos gestos quotidianos. A corrupção não começa apenas nos grandes escândalos; começa quando deixamos de acreditar que as regras devem ser iguais para todos.
Talvez o maior problema de Portugal não seja termos um sistema de cunhas.
Talvez o maior problema seja continuarmos a olhar para esse sistema como algo exterior a nós, quando, na verdade, somos nós que, todos os dias, decidimos se ele continua ou não a existir.
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