Os dias que nos devolvem a esperança - 2017 1ª revisao
Os dias que nos devolvem a esperança
Há dias em que o cansaço se senta ao nosso lado.
Dias em que as forças começam a faltar, em que a esperança parece escorrer lentamente por entre os dedos e em que a luta pesa mais do que o habitual. Dias em que olhamos para o caminho percorrido, para os obstáculos encontrados, para as portas fechadas e para as dificuldades acumuladas, e nos perguntamos quanto tempo conseguiremos continuar.
Mas a vida tem uma forma curiosa de nos surpreender.
Quando tudo parece mais pesado, surge quase sempre qualquer coisa — uma pessoa, um gesto, uma palavra, um abraço — capaz de nos lembrar porque começámos esta caminhada.
A passada quinta-feira foi um desses dias.
Antes de mais, pela generosidade de dois amigos extraordinários, o Pedro Mestre e o Chico Lobo, que quiseram, simplesmente porque sim, passar pelo Armazém 8 e oferecer-nos um espetáculo memorável. Daqueles que nos lembram que a música não é apenas arte: é encontro, partilha e humanidade.
Depois, pelo público. Apesar de não ser habitual termos uma sala cheia numa quinta-feira, as pessoas apareceram. Vieram. Encheram o espaço. Encheram-no de calor, de atenção e de afeto. E quem trabalha na cultura sabe que não há milagre maior do que ver uma sala cheia de gente disponível para escutar.
Mas a noite ainda guardava uma surpresa.
Entre os presentes encontrava-se uma figura maior da cultura brasileira: Zuza Homem de Mello.
Estava de passagem por Évora. Soubera da existência do Armazém 8 através de um amigo e decidiu aparecer para assistir ao espetáculo.
Confesso que, por vezes, só muito depois percebemos a dimensão de certos momentos.
No final da noite, já à saída, falou connosco. Elogiou a qualidade da sala, o trabalho técnico, a programação e a forma como foi recebido. Foram palavras simples, mas ditas por alguém que dedicou a vida inteira à música, aos artistas e à cultura.
Há elogios que nos deixam satisfeitos.
E há elogios que nos tocam num lugar mais fundo.
Receber reconhecimento de alguém que viu tanto, ouviu tanto e ajudou a construir uma parte tão importante da história cultural brasileira foi um bálsamo para os nossos corações cansados.
Mas o mais bonito nem sequer foram os elogios.
Foi o sorriso.
O dele e o da sua companheira.
Aquela felicidade tranquila de quem passou uma boa noite e leva consigo uma memória feliz.
E depois vieram as palavras que dificilmente esquecerei:
"Vamos continuar amigos."
"Obrigado por existirem."
"Continuem. Estão no caminho certo."
Há momentos em que uma frase vale mais do que um prémio. Mais do que uma distinção. Mais do que qualquer reconhecimento oficial.
Naquele instante foi como ganhar a lotaria.
Não a lotaria do dinheiro, mas a das certezas. A certeza de que vale a pena insistir. A certeza de que vale a pena resistir. A certeza de que, apesar das pedras que encontramos pelo caminho, aquilo que fazemos toca a vida das pessoas.
E é por isso que hoje só me resta agradecer.
Ao Zuza.
Aos músicos.
Ao público daquela noite e de tantas outras.
A todos os que entram naquela sala e a transformam num lugar vivo.
Porque são vocês que, nos dias em que as forças vacilam, nos devolvem a coragem.
São vocês que nos ajudam a continuar.
E são vocês que nos lembram que a cultura, antes de ser um espetáculo, é um encontro entre pessoas que acreditam que o mundo pode ser um lugar um pouco melhor.
Mesmo quando tudo parece difícil.
Sobretudo quando tudo parece difícil.
Comentários
Postar um comentário