Ha eleições na Sociedade da Pera e nao deveria-- 2022
Ás vezes demoramos anos a perceber uma coisa, um dia sem sabermos porquê faz-se luz.
Aconteceu-me neste domingo. Depois de se reformar o meu pai voltou a viver nos Canaviais, o lugar onde havia nascido. Passou também a votar ali, as votações foram sempre na Casa do Povo. De cada vez que existiam votações e falávamos delas entre muitas coisas dizia algo que nunca entendi e ele não sabia explicar" foi estranho, estava ali a votar e lembrei-me do meu pai, dos meus tios, deles todos, lembro-me sempre ali, é estranho" e era, ele ia muito à Casa do Povo a festas, jogar ás cartas, conversar, chegou ate em tempos idos a ter a exploração do café, mas só nesses dias aquilo lhe parecia estranho. eu nunca entendi, ele nunca conseguiu verbalizar.
Domingo fui levar a minha mãe a votar, ao chegar perto da porta e olhar a grande sala da Casa do povo, cheia de urnas e mesas de voto, senti uma coisa estranha, lembrei-me do meu avô que não conheci e percebi o meu pai.
Aquela Sala enorme que ele e os seus camaradas ergueram com as suas próprias mães, aquele edifício que construíram com o seu suor, as suas forças, com dinheiro, que não tinham, para comprar o que não podiam construir eles próprios, estava a ser usado para uma votação. Não seria nada de mais se aquele grupo de homens não fossem o reduto Anarquista da Região, homens que lutaram, viveram mal, foram perseguidos, espancados e alguns presos, por um mundo sem governos, sem poder!
Ali percebi a sensação do meu pai, aquela que ele nunca conseguiu verbalizar, usar a Sociedade da Pêra como espaço de votação é um desrespeito à memoria daqueles Anarquistas que a construíram.
Eu sei que quem o faz não o faz por isso, sequer sabe a historia do edifício, mas ele que sabia sentia algo estranho e eu sinto que não o deveriam fazer.
O desrespeito aumentou ao ver que 166 daqueles que ali votaram, votaram no fascismo, aquela ideologia que tanto os fez sofrer.
A historia é uma coisa tramada, a memoria pior ainda, felizmente eu não voto nos Canaviais.
Ha memoria do meu avô, dos meus tios avôs e à minha bisa Maria Barrenha, única mulher deste grupo de lutadores, dedico o hino dos seus irmãos de luta italianos e peço desculpa, por eles não saberem o que fazem.
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