Faz hoje 3 anos que se deixou partir a mulher que me teve- 29 de janeiro 2026

 Faz hoje 3 anos que se deixou partir a mulher mais obstinada, mais pragmática, mais firme, mais resistente e mais guerreira que conheci. A minha mãe foi, até ao fim, uma mulher muito à frente do seu tempo, até do meu ela estava à frente. Traçou um caminho para ela, sem deixar que ninguém a travasse ou atrapalhasse. Conheço muita gente trabalhadora, mas a resistência dela ao trabalho era superior a qualquer pessoa que conheço. O trabalho era a sua vida. Não havia coisa de que gostasse mais do que trabalhar. Quando acabava um trabalho, inventava outro e o curioso é que fazia todos bem, gostava de todos, entregava-se a cada um, como se fosse a sua grande paixão. Porque não era a tarefa que a apaixonava, era o caminho. Adorava mudar de profissão, aprendia-a com afinco, treinava-a como se fosse uma missão até levar ao que ela considerava perfeição. Ficava feliz quando conseguia concretizar o seu objetivo. Depois podia mudar de novo, o caminho estava terminado, havia ali, logo ao virar da esquina, algo novo por que lutar. E fez isto até à morte do meu pai, o bom do homem bem lhe dizia "oh mulher, já não temos idade para isso", mas ela queria lá saber, tinha um sonho novo, vá de arregaçar as mangas, fazer-se ao trabalho para concretizar uma nova coisa. Uns meses antes da morte do meu pai, andava a moer-nos a todos porque queria montar uma farmácia numa aldeia, era um bom negócio, leu tudo sobre como fazer, quem contratar, qual a casa onde a instalar, estava tudo pronto para iniciar a nova aventura.Andava tudo agastado, uma farmácia para lá do sol posto, um desgaste a andar de um lado para o outro, uma doidice, tudo menos ela, que com a sua muleta corria seca e meca para descobrir tudo o que era preciso para a concretização do seu novo sonho. Foi a pandemia que quebrou a minha mãe, levou-lhe o homem da sua vida, por mais que brigasse com ele todos os dias era o homem da sua vida, o seu companheiro, aquele que lhe aparou os sonhos a vida inteira e que seguia a seu lado, mesmo quando a única coisa que lhe apetecia era descansar. Depois dele partir, ela deixou cair o sonho, não voltou a sonhar mais nada, e a minha mãe sem sonhos, não era exatamente a minha mãe, também deixou de brigar, deixou de refilar, de sair. Sentou-se em frente da televisão, coisa que nunca tinha feito na vida e deixou que a energia que a definiu sempre se fosse. Deixou mesmo, vimos isso acontecer à nossa frente, no olhar perdido, nas respostas lentas, no abandono das decisões, no desapego das coisas materiais. Aos poucos, a fotografia do meu pai passou a estar mais horas nas suas mãos, foi pedindo mais beijos, coisa nunca vista, foi chorando mais vezes escondida, foi-se deixando ficar mais quieta a cada dia que passava. Foi perdendo a energia, a vontade e a saúde foi-lhe escorregando por entre os dedos, até ao dia em que decidiu ir para o lar. Nesse dia, voltou a ser ela, ia morrer, sabia-o e não queria morrer aqui em casa, por isso decidiu internar-se no lar e foi, não houve como a demover. Não durou 3 semanas, afinal só para lá foi para morer. Faz hoje 3 anos que a mulher que me preparou para encarar o mundo de frente e sem medo, se deixou partir, acho que o fez porque já não tinha o que sonhar.

A minha mae foi a confirmação do que diz a canção "eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida"

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